sábado, 31 de dezembro de 2011

A Casa Grande tem mais ouro que o Palácio de Buckingham

Eike Batista, empresário ramo de mineração e petróleo,é o
homem mais rico do Brasil, 8o do mundo. Além das
contrataçõesde ex-integrantes da Petrobras, que estariam
usando informações privilegiadas a favor do empresário, ele
conseguiu(num controverso leilão realizado pelo governo)
ganhar o direito de explorar os mais ricos campos de extração
do Pré-Sal. No primeiro dia de oferta publica de ações da OGX
(petroleira de Eike) o empresário lucrou cerca de R$ 25 bilhões
de reais (em um único dia, esse único homem ganhou mais
de 147 vezes o valor a ser pago pela Mega Sena da Virada)

Sexta Economia do Mundo. Octogésima oitava em Educação. Sexta Economia do Mundo. Octogésimo Primeiro IDH. Sexta Economia do Mundo. 11,5 milhões de Pessoas vivendo em aglomerados subnormais (favelas, palafitas, grotas, etc.). Sexta Economia do Mundo. Mais da metade não tem saneamento. Sexta Economia do Mundo. Uma mulher agredida a cada 15 minutos. Sexta Economia do Mundo. Um homossexual morto a cada 36 horas. Sexta Economia do Mundo. Movimentos sociais criminalizados. Sexta Economia do Mundo. Apenas 10% dos trabalhadores fizeram curso superior. Sexta Economia do Mundo. Só 3% dos formados exercem a profissão para a qual se preparou. Sexta Economia do Mundo. Morrem 23,4 crianças antes de um ano a cada mil (situação ainda é pior, pois muitos mais morrem se sequer ser registrada)- Em Cuba é 6, na Suécia é 3. Mas, mesmo assim, ainda somos a Sexta Economia do Mundo. População Carcerária beirando meio milhão (dobrou em 10 anos). Sexta Economia do Mundo. Barbalho Senador. Sexta Economia do Mundo. Ninguém pode investigar juiz. Sexta Economia do Mundo. Mais de 350 lideranças campesinas e indígenas assassinadas em um ano.
Copa! Olimpíada! Já mandamos um cara pro espaço pra plantar feijãozinho. Afinal, somos a Sexta Economia do Mundo. Invisíveis, centenas de milhares de moradores de rua não contabilizados. Guaranis, Caiapós, Fulni-ôs... Nações inteiras, minoria étnicas assassinadas, expulsas de suas terras, humilhadas. Ah, mas o Brasil está crescendo. Estamos nos desenvolvendo. É só a “merreca” que se paga para ser a Sexta Economia do Mundo.
Se dividíssemos esses 2,09 trilhões de dólares por cada um de nós 190 milhões, nosso PIB per capta seria um quarto do dos EUA. Mas não, não dividimos a bolada. Lembra quando diziam que o bolo precisava crescer para depois ser repartido? Bem, fim de papo, não tem mais desculpa, passamos os ingleses, mas lá a maioria come seu bolinho acompanhando o chá da tarde. Aqui, estamos de pires na mão. Então a Casa Grande daqui tem mais ouro que o Palácio de Buckingham.
Criança procura comida no lixo da 6a Economia do Mundo
Sexta Economia do Mundo. Trabalho escravo. Prostituição infantil.
Concentração de terra aumentando. Mais de 75% da área agricultável é ocupada pelo Agronegócio, mesmo que represente só 15% dos estabelecimentos rurais. E esses gigantes, que desmatam, acabam com a água e envenenam o solo não plantam alimento, só commodities industriais. A Agricultura familiar é que planta comida. Assim como no campo, a grande imprensa nacional também é para poucos, 13 famílias controlam o que vemos, ouvimos e lemos. E essas oligarquias rurais estão alinhadas com as oligarquias de Rádio e TV (bem como também estão alinhadas a bancos, corporações mineradoras estrangeiras que atuam no Brasil, empreiteiras e empresas de petróleo, como as da família Bush e de Eike Batista - ou deveria dizer Sheik Batista?).
Assim, o discurso chega manipulado. Universitários contra a militarização e o controle ideológico aparecem como maconheiros. Índios, como vagabundos. Camelôs e desempregados como baderneiros. Esse ano, até bombeiros que são heróis, foram mostrados como bandidos insurgentes.
Assim midia manipulada como o Grupo Bandeirantes de Comunicação (ao qual pertencem a TV Bandeirantes, Band News e Terra Viva – a voz dos latifundiários) omitem o que não querem, dão enfase ao que querem e usam eufemismos para dizer enrolando o que não dá para não dizer. Dizem “Áreas rurais consolidadas serão regularizadas”, para não usar as palavras diretas “áreas de preservação desmatadas ilegalmente vão ficar por isso mesmo, pois os criminosos serão anistiados”, quando vão falar de temas delicados como as mudanças do Código Florestal.
É preciso ter claro qual nossa real situação econômica, social e política nesse momento histórico agora que entramos em 2012, ano que deve ser de grandes transformações no Planeta. O Brasil é uma parte considerável do planeta, é 47% do nosso continente, e não está de fora (ou não pode estar de fora) das transformações que o mundo exige. Mesmo porque sem a construção de uma verdadeira democracia e estabelecimento da Justiça nesse pedaço do mundo, a própria vida no mundo está ameaçada (ninguém vive sem água, nem sem o ar que as florestas fornecem ao limpar a nossa caca de CO2 do ar).
Previsão de chuvas e trovoadas insurgentes nas eleições presidenciais de França, EUA e México. Na Rússia as eleições não terminaram, só terminam depois que arrastarem o último dos milhares de jovens da Praça Vermelha e o enfiarem no último trem para a Sibéria.
Paraenses acompanham funeral do castanheiro José
Cláudio, um do mais de 300 assassinados no campo
entre extrativistas, camponeses e indígenas em 2011;

Na Retrospectiva 2011 A Globo mostrou o Scliar,
a Lili Marinho, o José alencar, mas esqueceu centenas
de mortos. José Cláudio, castanheiro (e sua mulher),
Cacique Nísio Guarani Kaiowá; Marlone, Luiz Lopes, etc
Em quem vamos acreditar? No Jornal Nacional? Vamos acreditar que precisamos destruir a Amazônia (essa sim nossa verdadeira riqueza de valor inestimável) para “gerar a energia que o Brasil precisa para continuar crescendo”. Do que o Brasil precisa? Se tornar a Quinta Economia do Mundo? Isso não é ranking da Fifa. Comemorar isso é tão patético quanto torcer pra Central do Brasil no Oscar. Precisamos de Justiça, Verdade, Liberdade, Comida, Terra, Floresta, Paz, Voz.
A retrospectiva da TV Bandeirantes (que deve ter esse nome por que apoia a retomada do genocídio indígena) mostrou entre os fatos mais importantes a fórmula Indy que ela patrocinou, e a inauguração da iluminação da torre de TV na Paulista (acharam quase tão importante quando a queda de Berlusconi). Mas omitiu os novos movimento sociais, os levantes estudantis de Natal, a resistência Indígena, as ocupações publicas, o crescimento das bicicletadas.
Sinto muito Saads, Macedos, Marinhos e Abravanéis. As insurreições de 2012 não serão televisionadas, mas não poderão ser escondidas. Nem aqui, nem na China.

MAIS
"V pour Verités" (V de Verdades) música de Keny Arkana, música que tem tocado muito em ocupações anticapitalistas de todo o mundo

sábado, 24 de dezembro de 2011

O velho de barba branca (e bandeira preta)


"Nenhuma revolução social pode triunfar se não for precedida de uma revolução nas mentes e corações do povo". Piotr Kropotkin


Pela neve do extremo norte, caminha um velho de barba branca, bochechas gordinhas e seu óculos de ler cartinhas. Ele bem que poderia usar um gorro vermelho, mas não era o caso. Se fosse para usar um gorrinho desses, certamente não teria um pompom branco, seria um pileu, como o gorro do saci, como aqueles que na Grécia antiga recebiam os escravos libertos, símbolo da Liberdade, símbolo da Anarquia. O bom velhinho que caminha pela paisagem gelada da Sibéria, da Finlândia ou das montanhas da Suíça é o príncipe rebelde Piotr Kropotkin.
Corta para Dmitrov, arredores de Moscou, 1848. O príncipe Alexei Petrovich Kropotkin, dono de vastas regiões do Império Russo e com mais de 1200 servos sob seus pés vê sua esposa Iekaterine dar à luz: um lindo bebezinho nobre. Quando cresce, Piotr vai servir como pagem na corte do kzar por dois anos. Ele toma nojo pela nobreza, pela degeneração dos que se acham superiores e oprime os famintos. Mas aguentou firme para terminar sua formação científica: astronomia, física, história e filosofia. Mas também se interessou pelas ciências da Natureza e lhe inquietou o livro: A Origem das Espécies, de Charles Darwin.
Mutualismo: O peixe palhaço se vive entre os
tentáculos urticantes das anêmonas, pois é imune
 a esse veneno,  e assim se protege de predadores;
em troca, as anêmonas se beneficiam dos restos
de alimento e excrementos do peixe palhaço
Para fugir da nobreza, se voluntaria para uma ir à Sibéria. Missão: avaliar o sistema carcerário para propor reformas. As prisões políticas na sibéria se assemelhavam a campos de concentração. Ali viu mais nitidamente as contradições do Sistema e que vivia. Mas pode conhecer anarquistas e comunistas que lhe ajudaram em sua “conversão” à visão libertária do mundo. Pode ver a solidariedade entre os homens das tribos nômades, bem como observar a fauna e flora da região.
As reformas no sistema carcerário que ele propôs jamais foram levadas a cabo. Nem mesmo a Revolução de 1917 tornaria mais humana e decente a situação dos prisioneiros enviados à Sibéria. Mas o tempo não foi perdido. A observação da natureza e dos homens, sua ajuda mútua, sua solidariedade o ajudaram a escrever a mais célebre de suas obras: “O Apoio Mútuo: uma questão de evolução” (Baixe esse Ebook, é meu presente de natal para os leitores da coluna http://pt.scribd.com/doc/19944850/O-Apoio-Mutuo-Piotr-Kropotkin- ) em que corrige Darwin ao alegar (e comprovar) que a colaboração entre indivíduos da mesma espécie e de espécies diferentes é fator determinante para a sobrevivência, sendo mais importante que a competição no processo evolutivo. Para isso, apresenta uma infindável quantidade de observações sobre o comportamento de diversos animais, bem como sociedades “primitivas” e mesmo entre cidades livres da medievalidade.
Insetos sociais, como as abelhas, são exemplos típicos
 de que a colaboração entre indivíduos é mais importante
 para a sobrevivência da espécie do que a competição
Pegou a grana da sua herança (e não era pouca) e foi viajar (a coisa mais útil e válida a se fazer com dinheiro) e se engajar em processos pré-revolucionários que se desenhavam na Europa. Ficou amigo de Bakunin e de outros anarquistas “barra pesada”, como os relojoeiros de Juna. Foi preso algumas vezes (acontece...) por sua militância. Mas não foram só autoridades kzaristas e de outros estados autoritários e capitalistas que o perseguiram. Kropotkin, foi, junto com a turma de Bakunin, expulso da Primeira Internacional em 1872 por Karl Marx e seus discípulos ortodoxos.
A expulsão se deu por uma divergência que dura até hoje. Os marxistas acreditavam que um partido de trabalhadores deveria tomar o poder e estabelecer um estado (uma ditadura) que alterasse o modo de produção. Já os anarquistas bakunianos acreditavam que poder não é para ser conquistado, mas destruído e propunham a abolição do Estado. No lugar disso em associações horizontais e cooperativas os homens decidiriam seus destinos juntos e organizariam sua vida.
Prisioneiros (a maioria presos políticos) trabalham em
um gulag, os famosos campos de trabalho forçado
na Sibéria, durante o período soviético
E adivinhem só: Em 1917, o kzar foi derrubado. Viva a revolução socialista! Kropotkin volta à Rússia e é ovacionado por trabalhadores, estudantes, camponeses. Ele está entusiasmado: propõe cooperativas e outras reformas no Estado que estava se constituindo. Mas, não! Lênin não o ouviu. Lenin perseguiu, mandou prender e matar diversas vozes dissonantes, entre eles muitos anarquistas (a situação pioraria ainda mais com a morte de Lênin e ascensão de Stalin, o “Kzar Vermelho”, que por sorte Kropotkin não viu). O previsto pelos expulsos de Haia em 1872 estava se cumprindo.
“Vladimir Ilyich (Lenin), suas ações concretas são completamente contrárias às ideias que você finge sustentar", escreveu o príncipe anarquista ao líder Bolchevique.
Kropotkin era tão popular que era “imprendível”. Morreu vítima de pneumonia em 1921. Seu funeral, foi acompanhado por uma multidão (na qual até Emma Goldman estava presente). Bandeiras pretas tremulavam ao som de Tchaikovsky. Faixas exibiam os slogans "Onde há autoridade não há liberdade" e "Os anarquistas exigem a liberação das prisões do socialismo". Quando o féretro e os mais de cem mil presos que o passaram em frente à prisão, foi aplaudido por presos comuns e políticos.
O funeral de Kropotkin, em 1921, reuniu cerca de
100 mil admiradores e amigos; foi a última manifestação
pública  anarquista na União Soviética; depois disso a vida
sob a ditadura do PC não foi fácil para os libertários
O enterro de um dos maiores intelectuais de todos os tempos (que permanece desconhecido pela maioria, já que nem estados capitalistas nem socialistas estão interessados que os jovens leiam essas coisas em suas universidades) foi a última manifestação pública massiva de anarquistas na União Soviética. Depois disso, a maioria deles foi parar na Sibéria, no sistema carcerário que permanecia igual ao dos tempos do kzarismo.




EBOOKS DE GRAÇA
O Apoio Mútuo - uma questão de evolução
A Lei e a autoridade
- O princípio Anarquista e outros ensaios



Leia também neste blog: 
sobre Mahatma Gandhi (altamente influenciado por Thoreau, Tolstoy e Jesus)
sobre dois arquétipos muito vivos nas "esquerdas" brasileiras e o potencial satyagrahi dos bem-humorados brasileiros #GenteDiferenciada
sobre H. D. Thoreau pensador abolicionista estadunidense autor de "A Desobediência Civil" 

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Artesão do desarmamento

O Artesão do Armamento” é uma das poucas que eu sei de cor. Nem mesmo as poesias que eu próprio escrevo se conservam inteiras na minha memória. Mas não é só por isso que eu sempre recito “O Artesão do Armamento” em todo sarau, fogueira, ou mega-fone aberto que por aí nesse ano em que parte das pessoas começou a redescobrir o valor e sentido das praças, das fogueiras e da poesia,  de modo marcante nas Ocupações horizontais, orgânicas e autônomas (sem domínio de partidos, empresas ou organizações) que tenho visitado nos últimos meses. Acontece que essa poesia diz tudo que eu tenho a provocar.


Não sou eu quem determina o destino do mundo.
O poeta, ator e dramaturgo polonês
Karol Wojtyla ao lado de sua canoa
a remo; o artista  e filósofo amava
a natureza e os acampamentos
Não sou eu quem começa as guerras.

Apenas sigo o meu caminho. Faço o meu trabalho.
Nada faço de errado.
Mas não sei.

E essa é a questão,
que sempre me atormenta.
Não quem determina,
e no entanto nada faço de mal.

Faço girar parafusos pequeninos com os meus dedos,
fabricando componentes de armas
que nos ameaçam a todos.
E ainda assim não sou eu quem determina
o destino que aparece diante de nós.

Eu poderia criar outro destino,
tornando o mundo seguro para todos aqueles

que anseiam viver a sua vida.


E então eu saberia
a razão sagrada,
o significado brilhante
da nossa existência.

Ninguém então poderia destruir-nos
com as suas ações
ou iludir-nos
com as suas palavras.

O mundo que eu ajudo a fazer
não é um mundo bom.
No entanto eu não sou mau.
E não fui eu que o inventei.
Mas será isso suficiente?


A poesia foi escrita na Polônia, durante a ocupação nazista, nos anos 30,  por um rapaz que fazia teatro subversivo, underground, arte marginal, subversiva. Karol Wojtyla escrevia peças com temas bíblicos, numa sociedade em que a religiosidade era uma característica cultural forte. Mas o personagem título da peça “Davi”, por exemplo, não é só um pastor judeu que virou rei, mas a própria pequena e subestimada Polônia vencendo o gigante Golias, a dominação alemã. E “Jó” não era só um mito anticotestamentário sobre um cara superpaciente, mas, mais uma vez, símbolo da Polônia que não perdia a fé e a determinação mesmo perdendo tudo.
Oficiais da Gestapo (polícia política nazista)
dão "enquadro" em cidadãos alemães
O Teatro Rapisódico, como chamavam esse movimento cênico de contracultura, não usava figurino nem cenário. Por isso, podia ser apresentado em qualquer lugar: salas de aula, igrejas, praças. E quando chegavam agentes da Gestapo (polícia política nazista) podiam dissimular, dispersar sem dar bandeira. Atualmente, nos grupos anticapitalistas e de defesa do meio ambiente, algumas flash mobs ou ações diretas de terrorismo poético (ver também: Hakim Bey) tem agido dessa maneira.
Karol conheceu os abusos e o autoritarismo do capitalismo de Estado com a ocupação de seu país pela Alemanha Nazista e também os abusos e o autoritarismo sofridos por seu país depois que esse passou a orbitar o imperialismo socialista da União Soviética. Ele se opôs ao autoritarismo e à violência étnicas e sociais que conheceu.
MUDANÇAS NO CÓDIGO FLORESTAL
Mas ele não conheceu de fato, de sentir na carne, a violência da América Latina, do Brasil e dos povos de toda periferia de lugares que sofrem os abusos e o autoritarismo do Capitalismo Liberal. Certamente Karol, vulgo João Paulo II, esteve mal informado acerca desses povo na maior parte do tempo em que interpretou seu papel mais famoso (de 1978 até 2005, quando de sua morte). A mídia ocidental, os arapongas da CIA e a Opus Dei contavam que por aqui o mundo era livre, as coisas eram justas. Além disso, mentiam para o papa (que nos visitou algumas vezes, mas nunca morou aqui) que aqueles que lutavam por justiça, pelos direitos humanos, pela vida e pela liberdade seriam como espiões russos, conspiradores que desejavam instaurar no Brasil uma tirania comunista.
Estou convencido de que nos últimos anos de sua vida, de modo especial após o Jubileu e o 11 de setembro, Karol se tornou um crítico da civilização ocidental capitalista industrializada, naquele momento já globalizada, onde se tornava cada vez mais nítida a sua violência, injustiça e desalinhamento completo com a mensagem crística que sua Igreja diz se propor a guardar.
A questão que se levanta é dramática: sobre que fundamentos devemos edificar a nova era histórica, que está a nascer das grandiosas transformações do século XX? É suficiente confiar na revolução tecnológica, hoje em acto, que parece respeitar unicamente os critérios da produtividade e da eficácia, sem fazer referência à dimensão espiritual do indivíduo ou a quaisquer valores éticos universalmente compartilhados? É justo contentar-se com respostas provisórias aos problemas de fundo, abandonando a vida aos impulsos do instinto, às sensações  efémeras  ou  aos  entusiasmos passageiros? Esta interrogação volta a ressoar: sobre que fundamentos e que certezas deveremos edificar as nossas vidas e a existência  da  comunidade  a  que  pertencemos?” disse em 2002 a jovens do mundo inteiro em sua última viagem às Américas no encontro ecumênico Jornada Mundial da Juventude.
Hoje no Brasil se orquestra a destruição do Planeta e da vida em nome do progresso (no modelo século XX). O genocídio indígena pavoroso (tal qual o genocídio judeu e de ciganos, que Karol viu) está em andamento em nome da criação de gado e da construção da Usina de Belo Monte. Mais de 60 dos recursos hídricos (rios) estão ameaçados (e portanto a vida das pessoas) pelos interesses de um pequeno grupo de latifundiários que querem aprovar o Novo Código Florestal. Como esses políticos se dizem católicos,  e mostram tremendo furor ao afirmar isso durante períodos eleitorais e na hora de defender a violência contra minorias seuais, deveriam, no mínimo, ser excomungados por Roma, que deveria se atentar para o que hoje é verdadeiramente imoral.
Karol Wojtyla  "A questão que se levanta é dramática: sobre
que fundamentos devemos edificar a nova era histórica,
que está a nascer das grandiosas transformações do século XX?
"
A CNBB se declarou contra Belo Monte e está no Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável, no entanto não tem promovido quase nenhum debate nas paróquias para ajudar a informar as pessoas sobre o Código Florestal e a barragem.
Sem ninguém, nem nenhuma instituição que de fato esteja comprometida com a luta contra a injustiça social e pelas floresta, só nos resta agir como artistas subversivos ao estilo Karol Woytyla nos anos 30 e rezar por um milagre.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

As acampadas e a colônia de férias do PCdoB



Dirigentes da UNE se reúnem com a presidenta Dilma em março; nos últimos dias, enquanto acampadas eram reprimidas por todo o Brasil, a direção da entidade controlada pelo PCdoB se reunia diretamente com Senadores da República para acertar os detalhes da fake e chapa-branca  #OcupeBrasilia 
Aproveitando o momento e tentando instrumentalizar um movimento que não ajudou a construir, o partido de Aldo Rebelo montou um acampamento em Brasília. No infame e injustamente chamado #OcupeBrasilia (com “e” mesmo)os estudantes filiados ao PCdoB têm alimentação, transporte, ônibus que os levam e trazem para tomar banho, banheiros químicos, um grande gerador alugado, tendas do tipo usada em camarotes de festa de peão, seguranças particulares contratados, líderes, pulseirinhas do tipo “área VIP”, visita de deputados que aplaudidos calorosamente (ou seria mimeticamente). Tudo isso custeado por instâncias partidárias, além de receber doações de alimento fornecidas diretamente pela Bancada Ruralista. Não é difícil notar, portanto, a diferença gritante entre o #OcupeBrasilia e todas as outras acampadas ao redor do mundo inclusive no Brasil (como #OcupaSampa, #OcupaRio, #OcupaSalvador, #OcupaBauru, etc.).

Manifestantes impedidos de montar barracas por duas vezes
em uma semana, plantam bosque com mudas ameaçadas
de extinção no gramado em frente ao Congresso, no mesmo
dia em que a UNE montou um acampamento autorizado
(e provavelmente planejado) pelos governos Federal e Distrital
As demais “ocupas” do Brasil e do mundo têm por característica o fato de que essas ocupações de espaços públicos para a realização de manifestação permanente contra a ordem vigente surgem de maneira verdadeiramente autônoma, realizadas por pessoas que decidem por si mesmas participar, ajudando a organizar e a definir os rumos do movimento, sem se submeter a ordens superiores de dirigentes, nem de partidos, nem de setores do capital. Nesses espaços (como os formados em janeiro na raça Tahrir, em março na Plaza del Sol, em setembro em Wall Street, e em outubro no Anhangabaú) as pessoas são livres para propor debates, pautas e atividades a serem realizados.


Durante ocupação em Atenas, gregos de várias
idades e origens plantam árvore juntos;
características importantes das ocupações
internacionais tem sido, além de autonomia e
horizontalidade, o fato de não se fazer distinção
entre pessoas (participam não só estudantes) e
de o trabalho ser dividido entre os manifestantes
 Nas ocupas, na qual não se enquadra o acampamento da UNE, a solução dos problemas, inclusive estruturais, são encontradas juntos; no Ocupa Sampa, por exemplo, o sheique de uma mesquita, uma ONG e moradores da região central abriram suas portas ofereceram banho aos manifestantes; nessa mesma acampada um pequeno gerador a gasolina emprestado por um individuo abastecia os computadores até um inventor aparecer com o projeto de montagem de telhas foto voltaicas num projeto em que se envolveram voluntariamente diversos membros da acampada; no Ocupa Rio, a alternativa foi a criação de um sistema de geração de energia por dínamos movidos a pedalada. Nas ocupas, as pessoas não contam com agentes de segurança nem de limpeza contratados nos velhos moldes da divisão de trabalho; ao contrário, colaboram todos na limpeza e se revezam em turnos para proteger os companheiros contra as mais diversas ameaças (de modo especial, os agentes do próprio Estado). Um ponto positivo dessas acampadas é que elas não são exclusivas de estudantes, mas promovem o intercâmbio entre diversos setores da sociedade.

No acampamento que a UNE (há anos dominada pelo PCdoB, graças a eleições sempre questionadas no que tange a lisura e a transparência do processo) o Capital (de onde vem) resolve tudo. Outra diferença é a pauta fechada e falta de espaço para a discordância. A UNE (ou melhor, a coalizão governista que manipula estudantes que se submetem à suserania do PCdoB) pretende, na verdade, desviar o foco, canalizar a energia revolucionária de uma geração, aparelhar o momentum, para evitar o crescimento de ondas de insatisfação com o Sistema.

Ocupa Poá: gaúchos também querem mudanças
reais e profundas
É importante notar que exatamente uma semana antes de a UNE armar suas barracas, um grupo autônomo formado por pessoas independentes e oriundo de diversas realidades políticas e lugares, tentaram montar naquele mesmo lugar um acampamento para exigir Democracia Verdadeira e protestar contra os abusos de poder da elite dominante, sobretudo no que diz respeito a pautas ambientais (Belo Monte, Código Florestal, Setor Noroeste, etc.). Não deu tempo de erguer a terceira barraca até que chegasse uma frota de viaturas da Polícia Militar do DF para impedir o que se chamaria #OcupaDF. Uma semana depois, depois que as forças de repressão expulsaram com violência os acampamentos do Rio e de São Paulo, um acampamento autorizado pelo Governo do DF e articulado e financiado pelos partidos aliados do governo federal surge.

A pauta que a UNE diz carregar, além da meia-entrada para jogos da Copa 2014, é a Educação. Obviamente que ninguém é contra a Educação, que todos apóiam o aumento do investimento nessa área (quem acompanha minha coluna e meu blog sabe que a revolução da educação é minha luta). Isso tanto é verdade que em todas as acampadas autônomas que ocorreram (ou estão em andamento) no Brasil, via-se cartazes pedindo o aumento do investimento em Educação. Nessas acampadas autônomas também ocorrem aulas públicas, bibliotecas e outras ações práticas no que tange esse assunto.

Ocupa Salvador: revolução mundial com brasilidade
O acampamento monitorado (mais parecido com uma excursão de escoteiros do que com um front revolucionário) da UNE foi montado justamente no dia em que o Senado votava as alterações ruralistas do Código Florestal Brasileiro, com o objetivo também de invisibilizar as manifestações contra o projeto dos latifundiários que se aliaram a Aldo Rebelo.

Ao lado do #OcupeBrasilia, montou-se no mesmo dia uma estrutura com telão para os ruralistas assistirem à votação do código com os seus empregados que eles levaram de ônibus até Brasilia. Curioso ver que a maioria dos “apoiadores” do código foram para lá pagos por seus patrões fazendeiros e não faziam a menor ideia do que estava sendo votado chegando a afirmar que estavam lá por que o novo Código “é bão pra proteger as matas, né?”. Eles desciam dos ônibus e eram colocados em fila indiana, todos uniformizados, e eram “tocados” (como gado mesmo) por senhores de terno com megafone na mão. Desse QG dos latifundiários saíram as quentinhas que serviu de janta aos estudantes da UNE.

OcupE Brasília: acampamento com pulseirinha
de rave com tudo pago pela base do Governo
O que a maior parte da imprensa não divulgou é que, mais à frente, no gramado que fica diante do Congresso Nacional, um terceiro grupo passou a noite mesmo proibidos de montar barracas. Cerca de 30 pessoas (entre eles estudantes, professores e desempregados), muitas das quais estavam presentes na tentativa de levantamento do #ocupaDF no dia 29, plantaram 10 mudas de árvores ameaçadas de extinção (entre elas Aroeira, Cedro, Ipê Roxo, Pequi. Mogno, Jacaranda da Bahia, Gonzalo Alves e Pau Brasil) criando um bosque que pretendiam transformar em ponto de encontro e debates sobre democracia e temas ambientais. Essas pessoas resistiram em vigília, sem barraca, nem abrigo, dispostos a manter as árvores vivas.

Na manhã de quarta, a Polícia do Senado (SPOL) apareceu para fazer no gramado do Congresso, aquilo que seus mandantes fizeram em larga escala no dia anterior: arrancar árvores. Apesar disso, a resistência continua e deve acampar com outros grupos interessados em mudanças reais, apesar do fake #ocupebrasilia da UNE querer fazer parecer que as demandas do país se resumem simplesmente a mais 2% do orçamento para a Educação e descontos para a Copa do Mundo.

Mas é importante reforçar que o acampamento convocado pela UNE é formado e dirigido por gente que apóia governos e o sistema que promovem a violência e a repressão às verdadeiras acampadas autônomas.

Cartaz em acampada de Madri reflete ideia de autonomia
e libertação em relação aos partidos e políticos profissionais
Particularmente não consigo entender a lógica que o PCdoB tenta (e consegue) incutir na mente desses adolescentes (via UNE e UBES). De que forma pode ser bom para um projeto comunista que se faça uma aliança com os maiores latifundiários do país, ajudando na aprovação do desmatamento que comprometerá em 60% nossos recursos hídricos e dando fôlego e recurso para o capitalismo se sustentar pelos próximos anos?

Sim, eu gosto de ver estudantes nas ruas. Defendo a educação. Mas acho que a educação precisa melhorar justamente para que as pessoas aumentem sua capacidade de pensar para não serem manipuladas tão facilmente. Torço para que, de algum modo, uma tomada de consciência e ampliação dos horizontes (inclusive no que tange a leitura) dos estudantes do acampamento governista. Torço para que eles queiram mais, questionem mais. E finalmente entendam que estão sendo usados pelo sistema excludente e destruidor que deveriam combater. Quem dera eles resolvam, depois da colônia de féria, tomar parte em acampadas de verdade, discutindo educação, o momento histórico atual, valores, justiça social, meio-ambiente e principalmente: Democracia Verdadeira.

É vergonhoso que um momento histórico, um movimento autônomo internacional, de seres humanos questionando o Sistema, esteja no Brasil sofrendo esse vil ataque de partidos políticos. As ocupações ao redor do mundo devem ser alertadas que esse tal #OcupeBrasilia não é isso que tenta parecer.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Brasil, lado B

Ocupa Sampa, após 40 dias no Anhangabaú, mudou-se para
 Praça do Ciclista, na Av. Paulista
A primeira coisa é que eu me envergonho de andar por rodovias que tenham nome de bandeirantes. Sinto-me envergonhado de ver monumentos em honra a esses caras no estado em que nasci. Faz-me suar frio a testa de indignação ao ver a imagem de um bandeirante armado no brasão da Polícia Militar paulista e no da Guarda Civil Metropolitana da capital do Estado. Não tem nada de honroso isso. Não há nada de valoroso nos bandeirantes que os faça merecer tamanha reverência. Não há do que se orgulhar. Bandeirante é assassino. Bandeirante é ladrão. Bandeirante é estuprador. Bandeirante é destruidor da floresta. Bandeirante é sanguinário. Bandeirante mente na hora de contar a história.
Guardas Civis Metropolitanis de São Paulo se
recusam cada vez mais a andar com seu distintivo
de identificação; No braço direito vê-se a imagem
do bandeirante Borba Gato
E o bandeirantismo está em moda, na moda em todo o Brasil. Como não contamos a verdadeira história do Brasil para as crianças, o índio parece ainda não ter alma para a multidão calada. Penso se em vez de uma aldeia Guarani Kaiowá fosse o Leblon, Alphaville ou Moinhos de Vento (lar de ricos brancos no Rio, Sampa e Poá) que tivesse sido atacado por um bando de 42 pistoleiros... E se o corpo que permanece desaparecido fosse entre os olhos de um líder político branco, um senador ruralista, por exemplo, em vez do cacique Nisio? E se em vez do Xingu, quisessem construir a terceira maior hidrelétrica do mundo no Rio Paraíba, no interior de São Paulo, deixando submersos para sempre a Basílica de Aparecida e os locais de peregrinação de devotos do Frei Galvão (que dizem ser o primeiro santo brasileiro, mas houve muitos antes dele, sobretudo antes de Cabral)? Mas não... para a maioria, o índio não tem alma. Índio tá longe, lá no passado, como quase seres míticos ou animais extintos. A história dos vencidos não é nunca contada.
Anhanguera um dos maiores genocidas da História é
representado por estátua na frente do parque Trianon (SP);
 Na Alemanha, por exemplo, não há mais estátuas de Hitler
pelas ruas; aqui os bandeirantes de mármore e bronze
ainda  podem servir de alvos para pichadores e demais
artistas interventores urbanos
Penso na biologia. Se em vez de amontoadas às dezenas em salas com iluminação artificial, vendo um chato desenhar órgãos de plantas em paredes negras, as crianças pudessem aprender sobre a vida onde ela acontece: na natureza. Se ao redor do fogo, ouvindo Histórias e contando sonhos, as crianças aprendessem que aquele fogo é toda a energia e calor que a árvore que forneceu a lenha armazenou do sol. Elas poderiam saber que em tupi, fogo e estrela são a mesma palavra. Talvez elas sacassem que essa tal de fotossíntese é importante, aliás, é vital. Talvez não deixassem um bando de velhos gordos decidirem o futuro das florestas sozinhos no Senado.
Por isso esse ano eu resolvi viajar um pouco e registrar a história do lado que ela geralmente não é contada: o lado da resistência, e não a versão hegemônica. Sei que muitos leitores podem preferir quando falo de personagens magníficos de tempos passados, conte sobre costumes estranhos de povos longínquos, ou narre aventuras de outras civilizações. Mas... bem, tenho que pensar no meu colega historiador do futuro e contar o que tenho visto. Falar sobre os quilombos de nosso tempo. Há grandes homens (e mulheres) no nosso tempo também, a maioria deles não é conhecida, uns moram com os pais, outros em repúblicas, outros em florestas, outros nas ruas.
O apoio efetivo ao Santuário dos Pajés (território Fulni-ô)
aumenta rapidamente em Brasilia nos últimos meses;
Para defender a floresta e o espaço tradicional dos indígenas,
hoje já há mais de 200 apoiadores que se mobilizam quando
necessário para impedir desmatamentos por parte das
empreiteiras que querem tomar o terreno com apoio do
Governo do DF; na foto, PM dá apoio a ação ilegal de
empreiteiras e detém dezenas de manifestantes que
usavam o próprio corpo e tentavam deter o avanço
dos tratores com correntes sobre o cerrado,
Em Brasília, por exemplo, há jovens que se acorrentam a árvores para salvar o cerrado e o último território indígena do Planalto Central. Esses meninos e meninas defendem a terra que será compartilhada pelos filhos daqueles que os perseguem ou desencorajam. Vi em São Paulo gente deixando o conforto de seus lares para ir morar na rua com mendigos com câmeras na mão, filmando e divulgando para o mundo os desrespeitos aos direitos humanos cometidos pela GCM. Tenho visto pessoas indo morar no mato. Gente propondo novas formas de organização. Gente adquirindo novos comportamentos com relação a diversão, construção, alimentação e tratamento de resíduos. Vejo índios saindo de seus edens para ir à “babilônia” dizer à civilização “vocês estão errados. Assim nos matarão e matarão a si mesmos no futuro”. É uma resistência que sempre existiu desde Iperoig, desde Palmares, desde Chico Mendes. Uma resistência que ainda existe, como uma pequena semente adormecida que vai eclodir em algum momento. Bem que poderia ser agora, enquanto os rios ainda correm. Ou talvez será depois de um colapso (seja da economia seja do meio ambiente) em que teremos obrigatoriamente de mudar de vida. Mas é bom saber que eles existem, apesar de invisibilizados pelos contadores oficiais da história, acreditam e propõem um mundo diferente.


Contagem Regressiva
JP 26/11/2011
Santxiê Tapuya (de cocar com penas azuis), líder espiritual da comunidade Fulni-ô "Santuário dos Pajés"
Começa a contagem regressiva para a assinatura da sentença de morte das florestas ou o despertar.
Volto para o Planalto Central depois de 40 dias no Ocupa Sampa no Vale do Anhangabaú. Missão: a) ajudar a barrar o desmonte ruralista do Código Florestal; b) dar apoio aos caciques xinguanos Raoni Caiapó e Megaron Txucarramãe (que tinham uma audiência com o Ministro da Justiça); c) estar presente e atuante na tentativa de evitar a tragédia final na terra indígena fulni-ô “Santuário dos pajés”, a última terra indígena do DF. A decisão deve sair dia 29, mesmo dia da votação do código.
Donquixotismo, perda de tempo, loucura... Ouço esse tipo de coisa o tempo todo. Sei que os tratores dos ruralistas, as armas das forças de repressão, os muros dos palácios da capital onde pequenos grupos aristocráticos decidem as coisas, o culto ao dinheiro em nossa sociedade são forças tremendas e eu não passo dar de um professor de História viajando sem muito dinheiro no bolso. Mas e daí? Não vou me abster. Podem dizer que sou obstinado ou radical, mas talvez só assim se combata o radicalismo dos gananciosos. Sei que as próximas semanas terão impacto nos próximos séculos para a humanidade e a vida no planeta como um todo. Vai fazer diferença se nossos filhos terão água para beber, rio para brincar, se conhecerão tantas espécies de aves e peixes. Mas vejo que somos muitos e muitas Quixotes; pouquíssimos mesmos são os oligarcas gananciosos que querem isso. O grande problema não é o número de canalhas, mas a grande multidão calada de covardes que assistem a tudo apaticamente sem fazer nada.
Não bastasse desmatar (inclusive espécies protegidas) em área
indígena em estudo, a constrututora Brasal estourou um cano
de esgoto enquanto cavava um buraco; a nojeira contaminou
solo e lençol freático
Chego ao santuário e vejo que muita coisa mudou em três meses, uma área enorme da terra indígena (onde antes viviam seriemas, tucanos e tatus) hoje é pura terra arrasada, tratores de empreiteiras trabalham a todo vapor e a Funai segue prevaricando e adiando a demarcação. Não bastasse isso, a empreiteira Brasal (do empresário Osório Adriano - pesquisem e boicotem todas as empresas dele, inclui a distruibuição da Coca Cola no DF) estourou um cano de esgoto enquanto cavava um buraco onde será estacionamento do Bairro Setor Noroeste (o mais caro da história de Brasília), criando uma piscina de cocô a contaminar o solo e os lençóis freáticos. Na terra arrasada, sem nada, viaturas da PM do DF ficam paradas o tempo todo, como se fossem segurança particular dos grileiros (e dentre eles estão Daniel Dantas, Paulo Octávio, Arruda e mais uma corja).
Exército Insurgente de Palhaços, grupo artístico/político do DF
Triste chegar à aldeia e ver a escolinha vazia, abandonada, pois mulheres e crianças tiveram que deixar a área por segurança. O pajé Santxiê, o homem que conhece a cura para quase todas as doenças com o poder das plantas, tem os olhos tristes. Estava com saudade desse velho sábio, meu coração sangra por encontrá-lo assim.
Durmo no santuário e me regenero da viagem e da violência da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, graças à força da natureza. Sigo para a “Praça dos três podreiras” pela manhã e me encontro com o Exército Revolucionário de Palhaços, armados com bom humor, buzinas e narizes vermelhos. Marchamos até o Congresso e "todas" as forças de repressão nos incomodam no caminho, do Exército aos seguranças da Presidência, sobretudo quando passamos em frente ao Planalto (só os dragões da Independência ficam paradinhos). Eu registro em vídeo os palhaços chegando para engrossar a manifestação em andamento na chapelaria do Congresso. Fazem barulho e graça, mostram a que vieram: “Pare o desmatamento ou eu monto acampamento!”. Sim, das grandes capitais só falta Brasília armar a barraca.
Cacique Raoni, Leandro Cruz, Cacique Megaron
À tarde, os caciques do Xingu chegam a Brasília. Dilma não os recebe. O ministro também não os recebe, mas manda um assessor. A imprensa toda foi enganada pelo ministério que espalhou a informação de que Raoni não mais viria a Brasília, e ele veio. Estive com ele. Não deixaram ninguém acompanhar os xinguanos, nem a acessória jurídica. Raoni em Brasília não sai em nenhum jornal. É claro que vivemos sob uma ditadura. Ditadura dos milionários, das corporações industriais e da elite agrária.
Pior seria ver mulheres, palhaços, índios e idosos sendo agredidos pela PM do DF durante um protesto pacífico pela demarcação do santuário. Eles não sabem o que fazem? Eu faço questão de explicar para eles, calmamente, mesmo enquanto me empurram e agridem por simplesmente estar filmando tudo.
Minha esperança está naquele que Santxiê chama de O Grande Tupã, que está em tudo e todos. Quando ele nos inspira no coração (através de nossa indignação e esperança), podemos escolher agir conforme o coração, ou não. Tomara que muita gente não o cale e se movimente conforme o máximo de suas possibilidades, ou o mundo não será como antes.
MAIS
DOCUMENTÁRIO: SAGRADA TERRA ESPECULADA, sobre a resistência do Santuário dos Pajés

Sagrada Terra Especulada(A luta contra o Setor Noroeste) Documentário - 70min from Muruá on Vimeo.
VIAGEM NO TEMPO: Os Últimos Tapuyas  Meu relato sobre os conflitos de agosto e a história do povo Fulni-ô

sábado, 19 de novembro de 2011

O terrível "bom momento"

Manifestantes do Ocupa Sampa recebem coronel da PM com beijos e abraços. A revolução que precisamos é, sobretudo, comportamental, abandonar o ódio e a sede de consumo desenfreada para a adoção de uma cultura de paz

"E não vos conformeis com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus". Romanos 12:2

Vem chegando o Natal, os shoppings e casas das cidades brasileiras se enchem de lâmpadas e apelos para convencer as pessoas a consumirem, consumirem, consumirem. Um velhinho supostamente bom é pago para dar colo às crianças. Elas fazem fila por um abraço do ator. Ele pergunta logo de cara: "O que você quer ganhar de Natal". O cretino não diz a verdade, fala que os duendes estão trabalhando nisso. Não há duendes no Polo Norte. O mais próximo disso seriam crianças semiescravas trancadas numa fábrica em algum lugar do Sudeste asiático. É claro que a criança no colo do velhinho não vai perguntar se os desnutridos meninos que trabalham na mineração dos materiais necessários à fabricação de componentes eletrônicos na África foram bons garotos durante o ano.
Foto de 2010 mostra despejo de tribo Guarani Kaiowá no
MatoGrosso do Sulcom ajuda de tropas da Polícia Militar;
Na última sexta-feira a mesma etnia sofreu um ataque
de pistoleiros; A perseguição a esse grupo ocorre por uma
razão simples: os fazendeiros, que também tem sua cota
de políticos, decidiram que são donos das terras que esse
povo ocupa há séculos; hoje é pior que no tempo dos
bandeirantes
Não, não precisamos dessas lâmpadas chinesas. É para mantê-las acesas que precisamos construir uma usina que vai alagar a Amazônia e desalojar 40 mil pessoas (entre indígenas e ribeirinhos)? Os presépios já estão montados, são os viadutos sob os quais se abrigam os deuses-meninos cheirando tíner.
Mundo louco! Na sexta-feira, pistoleiros entraram no acampamento dos guarani kaiowá, meteram uma bala na cabeça do cacique. Mataram uma mulher e um curumim e sequestraram três jovens indígenas. O acampamento Pueblito Kue, MS, fica entre fazendas de criação de gado e plantio de soja que querem garfar a terra indígena. O governo do partido que há uma década defendia o fim do latifúndio se aliou a essa gente. E está tudo bem. Não tem nem que passar na TV. Assistimos a tudo de braços cruzados como os alemães, que achavam lindo a postura do Partido Nazista no fim dos anos 30, começo dos 40.
Roseana Sarney participa de inauguração de ampliação
da planta da Alumar (Alumínio Maranhão), consorcio
de alumínio formado por três grandes corporações
extrangeiras; apenas 10% da liga produzida ali fica no
Brasil. O lucro vai todo para fora do Brasil; aqui ficam o
subemprego (Alumar é campeã em acidentes de trabalho
e em má remuneração de seus operários) e os custos
ecológicos e sociais da construção de usinas que supram
a enorme demanda por energia elétrica dessa indústria de
transformação; Belo Monte no Pará está sendo construída
para isso: tornar o aluminio "brasileiro" mais competitivo
(mais barato, devido ao aumento da oferta de energia) que
o alumínio chinês
Ah, sim, mas teremos Copa do Mundo! Ah, sim, mas teremos Olimpíadas! Ah, sim, mas teremos uma fábrica de I-pads. Ah, sim, mas agora parte da população come carne uma vez a mais na semana. Carne! Carne! Carne! Carne, responsável por 70% do desmatamento da Amazônia.
Até agora ninguém ainda me respondeu quem matou José Cláudio, líder castanheiro paraense morto no dia em que os deputados aprovaram o desmonte do Código Florestal. Ah, Brasil! Brasil, o país do futuro. Brasil, a nova potência. Brasil, aquele que vai salvar o capitalismo mundial. Brasil, o novo império. Desenvolvimento! Desenvolvimento! Desenvolvimento!
A que preço? O sangue dos mais humildes e o sangue da floresta.
Ao lado do deputado Joaquim Haickel (PMDB),
o bilionário indiano Ratan Tata participa de
jantar na casa de Fernando Sarney em 2007;
um dos objetivos do principal acionista da Alumar
era cobrar celeridade na construção de Belo Monte;
é a prova cabal de que nosso país está na mão dos
grandes proprietários de terra e das corporações
internacionais
E aqueles que acampam em Porto Alegre, São Paulo, Salvador, Rio, Natal e Salvador são tão invisibilizados pela mídia quanto os indígenas. Quando mostrados aparecem como hippies, rebeldes sem causa, filhinhos de papai que não têm do que reclamar. Não há motivo para os brasileiros se levantarem. Está tudo bem. Penso nos índios e moradores de rua mortos sob nosso silêncio e lembro mais uma vez de Brecht: “Primeiro levaram os negros./Mas não me importei com isso./Eu não era negro./Em seguida levaram alguns operários./Mas não me importei com isso./Eu também não era operário./Depois prenderam os miseráveis./Mas não me importei com isso./Porque eu não sou miserável./Depois agarraram uns desempregados./Mas como tenho meu emprego, também não me importei./Agora estão me levando./Mas já é tarde./Como eu não me importei com ninguém./Ninguém se importa comigo”.
Não há outro caminho que não a rebelião. Um novo tipo de rebelião. Uma rebelião que se faz no dia a dia, não se omitindo ante a injustiça, se importando com o outro como se o mal que fazem a outros o fizessem a nós.
Índias xinguanas fazem dança tradicional; 
mais de 40 mil pessoass terão suas  terras
destruídas para a construção da usina de Belo
Monte; a grande mídia, aliada das classes
dominantes do país mostra uma falsa realidade,
em que esses povos simplesmente não existem

A rebelião não violenta inclui uma nova cultura, de ver o outro como igual e também de viver com maior fugralidade, consumir menos e, sobretudo, boicotar a “nosso” próprio país, pois nosso Estado está (e sempre esteve) em guerra contra seu próprio povo. Consumir menos energia, menos alumínio, menos carne. Rebelião não violenta inclui ligar para os senadores e deixar bem claro o que é que queremos ( http://www.senado.gov.br/senadores/ ). A rebelião não violenta inclui ir para a rua não só para protestar, mas para cuidar de nossos irmãos que estão na rua. A rebelião não violenta inclui desobedecer: desobedecer leis injustas, os apelos de consumo, o ímpeto de violência; desobedecer as cobranças de Imposto de Renda no começo do ano. A rebelião não violenta inclui ligar para o gerente do banco e dizer que sacará toda a grana (e não pagará empréstimos, se houver) caso a instituição financeira não desista de participar da Construção de Belo Monte, prova última de que nosso Estado não nos representa nem ouve ninguém além dos magnatas como Lakshmi Mittal e Ratan Tata(quarto e quinto homens mais ricos do mundo, que atuam no setor de alumínio, principal interessado na construção da barragem) e . O Bradesco já desistiu por medo de arranhar sua imagem, falta BB, CEF, Basa, Itaú-Unibanco, HSBC, Santander, Votorantim, BNE e BES.





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Manifesto Ocupa Sampa

Clipe Força da Paz
Entenda o que é o projeto Belo Monte, prova cabal de que vivemos sob a Ditadura do Capital disfarçada de Democracia

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Rua do Muro

Jornal do Povo - 15/10/2011

Óleo sobre tela de Leon Tantillo mostra a cidadela de Nova Amsterdã (atual Nova York) em meados do século XVII. Ao fundo vê-se a muralha que deu nome à Wall Street

No século XVII a América do Norte era um território selvagem, em disputa pelas potências mercantilistas. Os indígenas, verdadeiros donos da terra, eram caçados, mas resistiam bravamente contra franceses, espanhóis, ingleses e holandeses. Esses últimos fundaram um povoado ao qual chamaram Nova Amsterdã num interessante porto natural que fica no nordeste dos atuais Estados Unidos. Em 1640 contava com quase 300 habitantes, contingente insuficiente para resistir às investidas dos índios de Lenape. A solução foi construir uma muralha no melhor (pior) estilo medieval ao redor do povoado. Além de não deixar os índios entrarem, o muro servia para não deixar os escravos saírem. O muro de madeira e terra era impenetrável para as lanças e flechas dos nativos, mas não seria o suficiente para conter os ingleses, que chegaram pelo mar com armas de fogo tão poderosas ou mais que a dos mercadores de Nova Amsterdã. Expulsos os holandeses, os ingleses criaram uma nova vila em cima e ao redor da cidadela e rebatizaram o lugar com o nome de Nova Iorque.

"A Queda de Nova Amsterdã" do artista J.L.G. Ferris
Junto à muralha, abriram uma importante via que desde aquela época tinha por vocação ser centro de trocas e negociações, a Rua do Muro, em inglês Wall Street. Como os indígenas já tinham sido pacificados (isso é, expulsos e exterminados), o muro foi derrubado e a rua ficou e ao longo dos séculos foi palco de importantes acontecimentos históricos.
No fim do século XVIII, quando os descendentes dos colonos resolveram se libertar dos grilhões (e dos impostos, principalmente) pagos à coroa britânica, fundando a independente confederação a qual chamaram Estados Unidos da América (que à época eram apenas 13 colônias na costa leste do atual império), Nova Iorque se tornou a primeira capital do jovem e inspirador país. Na Rua do Muro, número 26, George Washington (o tiozinho de peruca na nota de um dólar) toma posse como primeiro presidente dos EUA em 1789.
Wall Street era o centro da política e dos negócios do novo país. Ali, no meio da rua mesmo, os homens se juntavam para combinar novas empreitadas e investimentos conjuntos, além de vender e comprar participações em empresas de negócios diversos. Era uma efervescência. Três anos depois da posse de Washington, de baixo de uma árvore que ficava em frente ao número 68 da Rua do Muro, 24 homens de negócios resolveram organizar as coisas por ali, redigindo tarifas e regras para os negócios de parcelas de empresas. Nascia a Bolsa de Valores de Nova Iorque, que em pouco tempo ganharia um edifício sede na mesma rua, onde até hoje é o endereço preferido dos principais bancos americanos.
George Washington toma posse como primeiro]
presidente dos EUA em Wall Street
Os estadunidenses construíram posteriormente uma outra cidade, Washington, para ser a sede do seu governo, mas, de fato, Wall Street nunca deixou de ser a sede do poder daquele país. As decisões de deputados, senadores, juízes e presidentes em Washington sempre estiveram submetidas aos interesses dos bancos e dos capitalistas mais ricos da famosa rua de Nova Iorque. O sistema político permitiu que o poder econômico permanecesse sendo o poder de fato, tanto via financiamento de campanha, quanto por meio de lobby, chantagem e especulação.
Outra fonte de poder de Wall Street sempre foi a manipulação da informação. Até hoje, o jornal mais influente no mundo é o The Wall Street Journal, fundado pelos jornalistas Charles Dow, Eduard Jones e Charles Bergstresser. Os três provaram ser muito mais homens de negócios do que jornalistas, pois no mundo dos negócios que se tornava cada vez mais complicado, abstrato e especulativo, informação é poder. Foram os três que criaram o índice Dow Jones, que calcula a oscilação média do valor das ações das 30 maiores empresas negociadas na Rua do Muro, que até hoje determina como será o dia (e a vida) de boa parte do mundo que vive com medo do mercado, um dragão imaginário que não deveria ter o poder de devorar o destino de africanos, gregos, brasileiros e japoneses. A fertilidade da terra, a chuva, o trabalho das pessoas, as relações sociais, as necessidades reais das pessoas e a capacidade de cada povo se organizar para supri-las deveriam ser mais importantes do que o que diz Dow Jones.
Muitos ficaram ricos e muitos mais perderam tudo em Wall Street.
Em choque, americanos vão para a frente da Bolsa
de Valores de Nova York acompanhar o pregão de 21
de outubro de 1929
Nos anos 20 os americanos se empolgaram tanto com o lucro fácil advindo da valorização constante das ações que tomaram um grande tombo. Muitos se endividaram junto a bancos para comprar ações, vender com lucro, pagar o empréstimo e ainda assim sair ganhando. Mas numa quinta-feira do outono de 1929, quando a artificialidade dos preços atingiu seu ápice e começou a cair vertiginosamente, ações que valiam 30 dólares no começo do dia, valiam três no fim do pregão. De uma hora para outra, milionários se viram falidos e endividados. Muitos se suicidaram no mesmo dia do início do período conhecido como Grande Depressão, da qual os EUA só se recuperariam graças à II Guerra Mundial. A farra de Wall Street recomeçou.
Em 2011, americanos ocuparam Wall Street
para questionar a ordem vigente
Nos fim dos anos 2000, a máscara da especulação começou a rachar novamente e o país começou a entrar em recessão. Hoje, há milhares de americanos acampados nas cercanias da bolsa com a firme intenção de desmontar esse sistema. Não sabemos para onde vai o movimento nem o que será da bolsa inaugurada sob uma árvore. A história está em marcha, mas uma mudança significativa de postura, crença e comportamento já é verificada. E sem isso talvez o muro etéreo do capital não se sustente.

domingo, 13 de novembro de 2011

#OcupaSampa Questionamento à sanidade em lembranças recortadas

(Jornal do Povo 12/11/2011)
Ocupa Sampa atrai dezenas de crianças de rua. As "autoridades" paulistas e paulistanas permanecem omissas à falta de escola, saúde e familia dessa população e ainda por cima é conivente com o tráfico de drogas para que acontece há menos de 100 metros da Prefeitura. Os "indignados" tentam fazer o que podem, inclusive denunciar a venda de drogas a menores, mas a PM e a GCM só aparecem para reprimir manifestação política e impedir que pisemos na grama.


“A loucura é que é sinal de sanidade. Por que num mundo doente como esse, como é possível alguém ficar bem, continuar sua vida normalmente? Se acostumar a isso é que é doentio. Nesse sentido, a loucura é o estado normal do ser humano de nosso tempo", me tranquiliza Cleberson, um irmão de Ocupa Sampa, psicólogo e amigo. Lembro do Cazuza: “Eu vou pagar a conta do analista”. E eu paguei há um tempo e decidi só ouvi-los se fosse para ouvir alguém sincero, que não estivesse interessado no meu dinheiro nem em resolver-me como um caso, um robô para reparar e botar de volta na linha de produção. Coisas como “seja um bom trabalhador” ou “pare de fumar, tome drogas caras e sintéticas” não me parecem conselhos de amigo. “Continue ‘louco’”, sim.
“To indo”, me diz Alemão, que estava morando na rua, mais um cara cuja vida foi devastada pelo sistema e pelo crack. Parou uns dias de usar a pedra, teve uma recaída, sofreu com isso; depois, com a ajuda de umas meninas da ocupação, arranjou uma vaga gratuita numa clínica de reabilitação. Ele estava indo com as próprias pernas e um sorriso no rosto. Eu digo a ele o quanto torço, confio na capacidade dele e o quanto sentirei saudades. Uma vez, estava frio no Anhangabaú e eu começava a ficar doente. Alemão me deu suas luvas, mesmo sendo muito tendo em vista o pouco que tinha. Ele preferia ficar acordado a noite toda, então ficava junto à fogueira e prescindia de luvas, mas não abria mão de cuidar do sono noturno daqueles que também cuidavam dele durante o dia.
A Prefeitura e o Estado de São Paulo querem começar um programa de internação compulsória que mais lembra o fascismo, recolhendo à força moradores de rua e drogadictos para “limpar” antes que os gringos vejam a verdade na Copa do Mundo. Moradores de rua desaparecem muito frequentemente em São Paulo. Geralmente, a última vez que foram vistos estavam sendo incomodados por alguma força de repressão.
Loucura é que um dia eu fui dar aula no gramado central do Vale, que hoje é uma praça suja e seca, mas um dia foi Mata Atlântica e teve um rio no meio, que hoje corre cheio de merda, canalizado sob o cimento. “Aula de História R$ 0,00”, diz a placa que apoio numa árvore. Há tempos descobri que os garotos que pulam o muro da escola são mais interessantes e inteligentes que os que sequer pensam em fugir desses presídios chamados escolas convencionais. Descalço, estou em círculo com gente biodiversa espiritual, cultural e socialmente. Numa aula em que todos participam é bom ouvir o índio, o skatista, a cigana, o bêbado, o menino da periferia que sabe fazer rimas como gente grande, o lixeiro, o sociólogo, o estudante de Direito que tem mais amor à Justiça do que às leis. É proibido pisar na grama, por isso chega a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo (GCM) com seus agentes armados e pisando pesado com botas militares.
Vão destruir o Xingu, aprovar mudanças suicidas no Código Florestal, e pisar na grama é que é crime ambiental. Tão proibido quanto plantar árvores, estender faixas, construir banheiros secos e ecológicos, acender fogueiras. Um punk pergunta “por quê?” e é ameaçado com spray de pimenta. Não podemos pintar “amarelinha” no chão e nos dizem para não dar alimento às crianças de rua que se aproximam do grupo acampado há quase um mês.
Denunciamos a infeliz que vende drogas às crianças e a GCM continua prevaricando. Na verdade, parece gostar que eles cheirem tíner e comecem a brigar no acampamento ou a roubar barracas para desestabilizar o movimento. O Estado, instrumento de poder do capitalismo, não quer que as acolhamos, não lhes oferece nada de dignidade, prevarica ante a situação das crianças, mas aparece para impedir que sentemos sob uma árvore para proteger a grama, que “é patrimônio público”, como justificam os GCMs. Diante disso, não tenho dúvidas de que insano é o sistema; insano é se conformar com o cotidiano, com crianças que jamais tiveram família nem fruta no pé usando drogas do lado da Prefeitura da cidade mais rica da América Latina.
Membros do Anonymous queimam revista Veja, que
manipula informação para fazer parecer que o movimento
contra todo o Sistema político e econômico é meramente
apenas contra o governo Dilma
Essa semana uma galera deu um baita trabalho construindo as estruturas para as telhas fotovoltaicas inventadas por Charles, o “Charlie Brown”, inventor e revolucionário. Na mesma semana aumentou o diálogo e o intercâmbio com as famílias das novas ocupações de prédios abandonados e com os universitários que querem a desmilitarização da sociedade. Os alunos da USP passaram em marcha sobre o Viaduto do Chá e aplaudiram o Ocupa Sampa aqui embaixo. Uma menina levanta o cartaz “Fora a PM do campus”. Eu grito: “Fora a USP do campus! Fora a PM do mundo”.
Não, não é fácil. Como sempre digo: não dá para fazer uma revolução europeia no Brasil. Na europa não há crack na boca de crianças de 6 anos e existem fontes com água limpa para as pessoas beberem. Lá não há tantas pessoas traumatizadas pela cadeia, nem pela violência da miséria.
Mesmo assim, há quem diga que o Brasil vai bem e é exemplo de democracia, que não há motivos para sonhar com revolução, nem querer mais participação das pessoas na vida do país, nem propor profundas mudanças culturais na maneira como as pessoas lidam umas com as outras e com a Terra e o local em que vivem.
Água cai do céu; comida nasce da terra; destruímos tudo isso para criar essa civilização de morte surreal e ainda nos achamos os seres mais espertos da natureza. Me desculpe, mas acho que natural e sano é mesmo se rebelar.


Aldeia rebelde em Sampabilônia

(Jornal do Povo 5/11/2011)
Sexta-feira, 3 de outubro de 2011, é o 21º dia de acampada. O Centro da maior cidade da América do Sul é cada vez mais nosso. O boicote da mídia hegemônica (que omite e/ou distorce) me dá nojo. As multidões que passam como zumbis de um lado para o outro sem perceber os absurdos do cotidiano me dão pena. Claro que aqui seria mais difícil. Não se faz uma revolução europeia na América do Sul. Aqui, onde sempre estivemos na bota do sistema, a maioria se acostumou com o peso e a sujeira dela. Tristemente aceita-se tudo com naturalidade. Tudo parece tão longe, tão distante. No Anhangabaú, não. Está tudo muito perto. “Tâmo junto e misturado”. Em volta da fogueira, tocando violão ou fazendo assembleia para definir os rumos do movimento.
O rapper Gog participa do Ocupa Sampa
Grafite. Malabares. Sabotagens poéticas. Meditação. Nossas armas são simples, mas têm vencido a Polícia Metropolitana, que parece não ter o que fazer a não ser nos azucrinar como criança chata. Viraram motivo de piada. Só rindo pra não morrer de raiva.
Como bem disse o p(r)o(f)eta Gill Scott-Heron: “A revolução não será televisionada”. Para piorar as coisas, não temos tantos computadores, paggers, celulares com internet e banda larga quanto gostaríamos. Por uma diferença simples, aqui não é a Europa. O acampamento cresce com sem-teto, estudantes, hippies, professores, punks, artistas, desempregados, intelectuais, camelôs despejados pelo Kassab, egressos, religiosos, idealistas em geral continuam a chegar. A cada dia fica mais claro não se trata de um protesto digital como muitos pensam. Não é só discussão de teoria ou preferências políticas. É sobre luta social. Mendigos, índios e a maioria da população brasileira não têm notebooks nem muito menos banda larga móvel. A limitação das comunicações atrasa o processo de integração com outros focos de resistência na cidade e com o mundo. Por isso, mesmo maior que as primeiras acampadas espanholas e estadunidenses, continuamos sendo ignorados por boa parte da população. É... Aqui o sistema é mais perverso e os mecanismos de controle do pensamento mais eficazes. Mas não desistimos, é tudo a seu tempo. Não dá para esconder uma coisa dessas por muito tempo.
População de rua adere cada vez mais ao Ocupa Sampa
É a realidade. Aqui é a rua. Tem a Força da Verdade (satyagraha). Estamos do lado da Prefeitura com a maior concentração de moradores de rua de São Paulo, com uma biblioteca, aulas abertas com intelectuais brasileiros, banheiro ecológico, cozinha comunitária, cinema sob o Viaduto do Chá, apresentações artísticas, rodas de conversa, atividades lúdicas, megafones, faixas. Como nos ignorar para sempre? Não vai passar tão cedo na TV nada de bom que sair do Anhangabaú ou da Cinelândia (Rio) ou de qualquer outra acampada. Mas é preciso resistir, mesmo que as doações de alimento começaram a diminuir quando a população da acampada começou a se tornar majoritariamente de pessoas que normalmente não têm mesmo comida e já moram na rua. Acho que hoje esses irmãos (assim que nos chamamos mutuamente) que vivem na rua, os últimos, os fudidos do sistema, já são quase 30% de nós. Enquanto isso, boa parte da molecada de classe média “revolucionária de sofá” que estava no início não aguentou o choque de realidade nem quis trabalhar para construir algo novo, já saiu fora. Por sorte, chegam reforços valorosos: ontem, por exemplo, chegou um cara da USP com um projeto de um gerador elétrico movido à pedalada para fazer com ferro velho, o que deve aumentar nossa capacidade de transmitir conteúdo pela web, já que mais computadores poderão ficar ligados.
Os militantes de partidos políticos que provavelmente pretendiam cooptar o movimento ou tentar direcioná-lo foram os primeiros a sair fora quando viram que todos eram de fato iguais e importantes. “Nossos sonhos não cabem nas suas urnas”, diz a faixa que resume que não queremos reforminhas de mentiras nem trocar os políticos, simplesmente não acreditamos mais no sistema que não nos representa ou sequer nos ouve. Então não há disputa. Todos somos indivíduos. Todos queremos o bem comum. Não há um poder interno em disputa, não há o que conquistar ou quem vencer nas assembleias: por isso os manobristas partidários saíram fora. Nosso processo deliberativo é um outro tipo de democracia em que todos buscam o bem comum. As minorias não são vencidas pelo voto, pois sempre que derrotados numa “votação” têm a chance de expor por que discordam dessa ou daquela proposta, ajudando a ver outros lados da questão, então a assembleia tenta achar uma solução que resolva os problemas apontados pelos “vencidos”, pois o objetivo é que todos vençam juntos. Essa postura é revolucionária: não ver quem pensa diferente como inimigo, mas como companheiro que colabora na busca da verdade. O fato de não haver classe social nem diferenciação na distribuição de trabalho nem de alimento nem de nada ajuda nisso. Na sociedade oficial é diferente, cria segregação para nos desunir. Os 99%, se divididos, não são 99%. Não fosse o Ocupa Sampa, que quer virar Ocupa Brasil no dia 11/11/11, não teria conhecido e adentrado o mundo da rua, dos invisibilizados, e continuaria admirando gente branca que adora teorizar sobre sociedade, mas na hora da rua não se mexe para mudá-la.


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O professor Pardal xamânico do Acampa Sampa