domingo, 26 de dezembro de 2010

WIKIREBELS - documentário sobre o Wikileaks na íntegra

Acredito que as pessoas ainda não se atentaram para a importância histórica do Wikileaks
Acho que é porque tudo está acontecendo muito rápido e os vazamentos, ataques e contra ataques são bastante recentes. O documentário Wikirebels ajuda a compreender melhor.
Também estou reproduzindo aqui o filme "Assassinato Colateral", cenas reais de soldados estadunidenses abrindo fogo contra civis (inclusive jornalistas e uma perua que levava crianças para a escola) em Bagdá usando munição antitanque numa operação coordenada, autorizada e ordenada por seus superiores.

WIKIREBELS - PARTE 1
WIKIREBELS - PARTE 2

WIKIREBELS - PARTE 3

WIKIREBELS - PARTE 4


Colateral Murder - versão completa com legendas em português



NOVO - ENTREVISTA DE JULIAN ASSANGE À TV ALJAZEERA EM INGLÊS

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Smith e Marx dialogando no fim da primeira década do séc XXI



"O que aconteceu nos últimos 30 anos no mundo vai contra tudo o que tu e eu, como economistas e como filósofos morais, queríamos", diz Adam Smith a Karl Marx no diálogo imaginado pelo professor Domènech. No diálogo, Smith e Marx conversam sobre a situação do capitalismo, defendem a atividade econômica geradora de riqueza e criticam os parasitas rentistas que buscam o lucro a qualquer preço.






















Esse é o Dinão
E esse aqui é o Antoni
Domènech, autor do texto
Esse texto foi enviado há algum tempo pelo professor Antônio Francisco "Dino" Magnoni, que foi meu professor de Radiojornalismo 1 na Unesp-Bauru (quando me aventurei a fazer uma segunda faculdade).
Dinão é um cara inteligente, bem humorado e que gosta da área em que atua. Mesmo que seus alunos chegassem mortos de sono às suas aulas, depois de um dia estafante de trabalho, Dino conquista a atenção e amizade dos alunos.
Além disso, sempre oportuno, costumava sugerir boas leituras, que ajudavam a conduzir o acadêmico a reflexões profundas (coisa cada vez mais raras nas universidades). Uma desses textos que o Dinão dividiu com a gente, divido agora com vocês.
Trata-se de um texto do professor Antoni Domènech, catedrático de Filosofia Moral na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Barcelona e editor da revista SinPermiso, produziu um diálogo fictício entre Adam Smith e Karl Marx sobre a crise atual do capitalismo e as leituras que os pensadores posteriores fizeram sobre o trabalho deles.

Ao Dinão Magnoni e ao camarada professor Fábio Negrão (outro grande conhecedor, das ciências humanas e jazzísticas, com quem cresci bastante) dedico esse post.


Adam Smith e Marx dialogam sobre o desmonte do capitalismo financeiro

por Antoni Domènech - Revista Sin Permiso


Karl Marx: Viste, velho, que esse menino, Joseph Stiglitz, anda dizendo por aí que o colapso de Wall Street equivale à queda do Muro de Berlim e do socialismo real?

Adam Smith: Não é para ficar contente, nem eu nem tu. E tu, menos ainda que eu, Carlos.

Karl Marx: Cara, por conta do suicídio do capitalismo financeiro, meu nome voltou a estar na moda; meus livros, segundo informa o The Guardian, se esgotam. Até os mais conservadores, como o ministro das finanças da Alemanha, reconhecem que em minha teoria econômica há algo que ainda vale à pena levar em conta...

Adam Smith: Não me venhas agora com vaidades acadêmicas mesquinhas post mortem, Carlinhos, já que em vida jamais te abandonaste a esse tipo de coisa. Eu falo num sentido mais fundamental, mais político. Nenhum dos dois pode estar contente e, te repito, tu menos ainda que eu.

Karl Marx: Sim, e aí?

Adam Smith: O “socialismo real” que se construiu em teu nome e não tinha nada a ver contigo. Pelo menos tu, sim, te identificaste como “socialista”. Eu, por outro lado, nem sequer jamais chamei a mim mesmo de “liberal”! Isso de “liberalismo” é uma coisa do século XIX (a palavra, como tu sabes, foi inventada pelos espanhóis em 1812), e vão e a atribuem a mim, um cara que morreu oportunamente em 1793. É ridículo!Como isso foi me acontecer?

Karl Marx: Já vejo por onde estás indo. Queres dizer que nem a queda do Muro de Berlim nem o colapso do capitalismo financeiro em 2008 têm muito a ver nem contigo nem comigo, mas que, ainda assim, nos jogam as responsabilidades?

Adam Smith: Exatamente. Mas em teu caso é pior, Carlos. Porque tu, sim, te disseste socialista. A mim pouco importa o “liberalismo”, qualquer liberalismo. Não há o que explicar a ti, precisamente um de meus discípulos mais inteligentes, que nem minha teoria econômica nem minha filosofia moral tinham nada a ver com o tipo de ciência econômica, positiva e normativa, que começou a impor-se nos teus últimos anos de vida, isso a que tu ainda chegaste a chamar “economia vulgar” e que tanto agradou aos liberais de tipo decimonônico.

Karl Marx: Claro, tu e eu ainda fomos clássicos. Depois veio essa caterva vulgar de neoclássicos, incapazes de distinguir qualquer coisa.

Adam Smith: Por exemplo, entre atividades produtivas e improdutivas, entre atividades que geram valor e riqueza tangível e atividades econômicas que se limitam a obter rendas não resultantes de trabalho (rendas derivadas da propriedade de bens imóveis, rendas derivadas dos patrimônios financeiros, rendas resultantes de operações em mercados não-livres, monopólicos ou oligopólicos). Nunca deixou de me impressionar a agudeza com que elaboraste criticamente algumas dessas minhas distinções, por exemplo, nas teorias da mais-valia.

Karl Marx: É evidente. Tu falaste repetidas vezes da necessidade imperiosa de intervir publicamente em favor da atividade econômica produtiva. Isso é o que para ti significava “mercado livre”; nada a ver com o imperativo de paralisia pública dos liberais e dos economistas vulgares, incapazes de distinguir entre atividade econômica geradora de riqueza e atividade parasitária visando ao lucro.

Adam Smith: Em meu mercado livre os lucros das empresas verdadeiramente competitivas e produtivas e os salários dos trabalhadores dessas empresas nem sequer teriam que ser tributados. Em troca, para manter um mercado livre no sentido em que defendo, os governos deveriam matar de impostos os lucros imobiliários, financeiros e todas as rendas monopólicas...

Karl Marx: Quer dizer, a tudo o que, depois de terem dado a mim por morto, e em teu nome, Adam, em teu nome!, se fez com que deixassem de pagar impostos nos últimos 25 anos. Haja saco!

Adam Smith: Haja saco, Carlos! Porque o que eu disse é que uma economia verdadeiramente livre, na medida em que estimulasse a riqueza tangível podia gerar - graças, entre outras coisas, a um tratamento fiscal agressivo do parasitismo rentista e da pseudo-riqueza intangível - amplos recursos públicos que poderiam ser destinados a serviços sociais, à promoção da arte e da ciência básica – que é, como a arte, incompatível com o lucro privado -, a estabelecer uma renda básica universal e incondicional de cidadania, como queria meu conterrâneo Tom Paine, etc. Vês, já, Carlos: eu, que não passei de um modesto republicano whig (1) de meu tempo, agora, se quatro preguiçosos, ainda que ignorantes, professorzinhos não me falseassem, e se lessem com conhecimento histórico de causa, até poderia passar por um perigosíssimo socialista dos teus. E te direi, e há de ficar entre nós, que, considerando o que temos visto, a tua companhia resulta bastante grata a mim...

Karl Marx: Na realidade, todo o teu conhecimento, como o de tantos republicanos atlânticos de tua geração, foi posto a serviço do princípio enunciado pelo grande florentino mal-afamado, a saber: que a liberdade republicana não pode florescer em nenhum povo que consinta com a aparição de magnatas e senhores [gentilhuomini], capazes de desafiar a república. E só assim se vê como a falsificação, em teu caso, é pior que no meu: o “socialismo real” abusou aberrantemente da palavra “socialismo”, dando cabimento ao regozijo de meus inimigos; mas tu nem chegaste a te inteirar sobre o que era esse tal de “liberalismo”!

Adam Smith: Quem não se consola é porque não quer, Carlos. O certo é que o que aconteceu nos últimos 30 anos no mundo vai contra tudo o que tu e eu, como economistas e como filósofos morais, queríamos. Olha esses pobres espanhóis, inventores do termo “liberalismo”. A ti e a mim importava sobretudo a distribuição funcional do produto social (isso a que agora tratam como PIB): pois bem, a proporção da massa salarial em relação ao PIB não parou de baixar, na Espanha, e seguiu baixando inclusive depois que o partido até há muito pouco tempo se dizia marxista voltou a assumir o governo em 2004...

Karl Marx: Sim, sim, um horror...Mas é que quando esses meninos supostamente me abandonaram por ti e passaram a se chamar “social-liberais” no começo dos anos 80, o que fizeram foi uma coisa que também teria te deixado de cabelo em pé. Observa que não só retrocedeu a proporção da massa salarial em relação ao PIB, senão que, na Espanha do pelotazo (2) e do enrichisez-vous (3) de Felipe González, o mesmo que na Argentina da “pizza e do champanhe” de Menem e em quase todo o mundo, os lucros empresariais propriamente ditos também começaram a retroceder também em relação aos rendimentos imobiliários, financeiros e as rendas monopólicas, no PIB...

Adam Smith: Como nos arrebentaram, Carlos!

Karl Marx: Não te desesperes, Adam. A história é caprichosa e, quem sabe seja melhor, agora, que comecem a nos levar a sério. Observa que acabaram de dar o Prêmio Nobel a um menino bem danado, que há anos estuda a competição monopólica e resgata Chamberlain e Keynes, esses caras que ao menos se esforçaram para nos entender, a ti e a mim, nos anos 30 do século XX, e que queriam promover a “eutanásia do rentista”...

Adam Smith: - Eu fui um republicano whig bastante cético, Carlos. Não vivi o movimento dos trabalhadores dos séculos XIX e XX e a epopéia de sua luta pela democracia. Não posso entregar-me tão facilmente ao Princípio Esperança (4) daquele famoso discípulo teu, agora, certamente, quase esquecido.

Tradução: Katarina Peixoto

Notas

(1) O Whig Party era o partido que reunia as tendências liberais no Reino Unido e se contrapunha ao Tory Party, dos conservadores. Whig (ou Whigs) é uma expressão de origem popular que se tornou termo corrente na designação do partido liberal no Reino Unido. Esta corrente contribuiu para a formação do atual Partido Democrata Liberal – Liberal Democrats. Também está presente em algumas vertentes do Partido Trabalhista inglês-Labour Party. É profundamente relacionado ao protestantismo calvinista, na sua forma presbiteriana, das sociedades escocesa inglesa. Tem origem nas forças políticas escocesas e inglesas que lutaram a favor de um regime parlamentar protestante: o Whig Party.

O Whig Party foi um dos partidos mais influentes no sistema parlamentar britânico até o fim da Primeira Guerra Mundial, alternando com os Tories na formação do governo britânico. Depois da Primeira Guerra, o partido perdeu importância e foi praticamente substituído pelo partido trabalhista (Labour Party) na alternância do poder político no Reino Unido com os Tories.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Whig_(Reino_Unido) N.deT.

(2) A cultura do pelotazo, na Espanha, refere-se ao enriquecimento rápido e sem esforço.

(3) Expressão atribuída historicamente a uma suposta afirmação do historiador e político francês François Guizot (1787-1874). Num contexto de restauração de forças conservadoras no poder francês, teria Guizot, segundo consta na tradição do anedotário político, expressado seu entendimento da agenda revolucionária de 1789. Consta que, logo após ter assumido a chefia efetiva do governo, por volta de 1840, ele pronunciou: “Esclareçam-se, enriqueçam, melhorem a condição moral e material da nossa França”. Para outros, Guizot disse isto: “Enriqueçam para o trabalho e para a indulgência e serão eleitores”, respondendo aos detratores do voto censitário. A expressão passou então a ser usada como descrição de um comportamento cínico e privatista, como parece ser o caso nesse diálogo. N.deT.

(4) O Princípio Esperança (editado no Brasil pela Contraponto) é o trabalho mais famoso de Ernst Bloch, de 1959. Sobre Bloch, são dignas de reprodução as seguintes considerações de Michael Löwy: “Teólogo da revolução” e filósofo da esperança, amigo de juventude de Lukács e Walter Benjamin, Ernst Bloch designa a si próprio como um pensador romântico revolucionário. Nascido na cidade industrial de Ludwigschafen, sede da IG Farben (Importante Empresa Química), olhava com espanto e admiração a cidade vizinha, Manheim, velho centro cultural e religioso; como dirá mais tarde numa entrevista autobiográfica, esse contraste entre “a aparência feia, despida e sem delicadeza do capitalismo tardio” - símbolo do “caráter-de-estação-de-trens” (Bahnfof-shaftigkeit) de nossa vida moderna e a antiga cidade do outro lado do Reno, símbolo da “mais radiante história medieval” e do “Santo Império Romano Germânico”, deixou uma profunda marca em seu espírito.

Leitor entusiasta de Schelling desde a adolescência, aluno do sociólogo neo-romântico (judeu) Georg Simmel, em Berlim, Bloch irá participar durante alguns anos (com Lukács) do Círculo Max Weber de Heidelberg, um dos principais núcleos do romantismo anticapitalista nos meios universitários alemães. Testemunhos da época o descrevem como um “judeu apocalíptico catolicizante”, ou como “um novo filósofo judeu...” que se acreditava, com toda evidência, precursor de um novo Messias./ Por essa época (1910-17), havia uma profunda comunhão espiritual entre Bloch e Lukács, de que é possível acompanhar os vestígios em seus primeiros escritos. Segundo Bloch (na entrevista que me concedeu em 1974), “éramos como vasos comunicantes; a água encontrava-se sempre à mesma altura nas duas colunas”. Foi graças a Lukács que ele se iniciou no universo religioso de Mestre Eckhart, Kierkegaard e Dostoiévski – três fontes decisivas para sua evolução espirital. ”In: Redenção e Utopia: o judaísmo libertá
 rio na Europa central (Um estudo de afinidade eletiva)”. Trad. Paulo Neves, São Paulo, SP, Companhia das Letras, 1989, p. 120). N. de T.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Poesia nova... dedicada aos sacis, nossos aliados

Na pegada do saci (por Leandro Cruz)


O pé do preto perneta
voa na cara do capitão
O saci pererâ por Julia Bax
O pé do preto perneta
vai na porta da senzala
O pé do preto perneta
pisa suave na Terra

O pé do preto perneta
abre o caminho da revolução
O pé do preto perneta
Engatinha, bike, bengala
O pé do preto perneta
Está preparado pra guerra

A pegada do saci é uma pegada descalça
A pegada do saci é uma pegada descalça

O pé do preto perneta
salta na roda de capoeira
O pé do preto perneta
Não falha na corda bamba
O pé do preto perneta
gira no samba de roda

O pé do preto perneta
chuta a segunda-feira
O pé do preto perneta
veio a pé de Aruanda
Personagem Saci Urbano, do grafiteiro
Thiago Vaz,presente em vários pontos de
São Paulo é visto pegando um rato imperia-
lista em um muro de Londres  
O pé do preto perneta
não quer o tênis da moda

Não teme caminhos novos
Não pisa dentro da linha
Não é preso por bola de ferro
Não se intimida ante a opressão

Se sente em casa na mata
Se refresca no leito rio
Sabe fugir da polícia
Sabe escalar o céu

A pegada do saci é uma pegada descalça
A pegada do saci é uma pegada descalça

É moleque que anda pelado
É guerreiro e é brincalhão
Tem um pé só que é pra só acelerar

O equilíbrio do pé do aleijado
deixa livre o homem e a mão
O que você quiser, é só pegar:

Enxada
Guitarra
Berimbau
Cachimbo
Fruta no pé
Lata de spray
Coquetel e fogo
As flores do vizinho
A mão do seu amor
O pescoço do feitor
Pode tocar
Pode tocar
Pode tocar...

sábado, 27 de novembro de 2010

Rosângela e a História do Brasil

Jornal do Povo, Cachoeira do Sul-RS. edição de 27/11/2010


Ela morreu em novembro de 2010, aos 14 anos, estudando,  na favela em que vivia com a família


Com medo de bala perdida, mães correm de mãos dadas aos filhos rumo à escola | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia

por Leandro Cruz
Gente de monte, como formiguinhas, deixando suas casas rumo a campos de refugiados (escolas e quadras). Gente correndo. Gente com medo. Gente chorando. Gente morrendo. Gente empolgada com o espetáculo. Gente angustiada. Tinha também helicópteros. Blindados. A Marinha participando da ocupação de um bairro da  Antiga Capital. Rio, a um mês do Natal de 2010 d.C.
Foto do século XIX mostra africanos que continuavam
a ser traficados pelos brancos para trabalharem
como escravos no Brasil; a Marinha fazia vista grossa
Num canal da TV debatem os impactos da crise para a economia. Estão preocupados com o dinheiro que os patrões não ganharam porque nessa quinta-feira muitos trabalhadores não compareceram no emprego. Falam das bolsas, da imagem do país lá fora. O outro canal mostra horas e horas contínuas de transmissão ao vivo, como se tudo não passasse de um Counter Strike real, só que narrado por algum apresentador mais empolgado que o Galvão Bueno.
Numa matéria curta, citam o nome de Rosângela Alves, uma menina de 14 anos que foi morta dentro de casa. Ela estava estudando... Ela nem viu sua "hora da estrela".  A nota sobre as pessoas tem poucos segundos. Logo entram os comerciais.
Família de Rosângela Alves Barbosa, 14 anos,
 morta durante ocupação da Vila Cruzeiro
A TV repete pela boca dos anunciantes e das autoridades: continuem trabalhando e consumindo normalmente. Volta a imagem de helicóptero. Corta aqui. Corta ali. "Olha ali na laje: os bandidos!". Entra uma matéria de "recapitulação" em que o repórter diz: "O confronto entre as forças do Estado e os bandidos no Rio começou na última semana, quando integrantes de facções criminosas iniciaram uma série de ataques a batalhões da Polícia, além de atos de terror como o incêndio de dezenas de carros pela cidade".
Acho bem estranho essa cobertura. Quando há guerra em outros países, em lugares distantes, a mídia acaba mostrando, pelo menos um pouco, as raízes históricas do conflito. Durante a segunda intifada, por exemplo, falaram, ainda que de passagem, do significado da Mesquita de Al Aqsa, do Plano de Partilha da ONU, da Guerra dos Seis Dias e da do Dia do Perdão. Em programas mais aprofundados, falaram de como os romanos destruíram Jerusalám, do Holocausto e, de passagem, do Sionismo.
Eu não consigo entender uma coisa: quando a guerra é aqui no Brasil, o retrospecto começa a partir da semana passada. Como se tudo tivesse começando agora. Meu pensamento volta para Rosângela. A foto dela apareceu na TV por menos de cinco segundos. Disseram que, quando a bala atravessou seu peito, ela estava estudando. Não deram detalhes. Penso: “Será que ela estava estudando História?”. Será que deu tempo de ela chegar até que parte? Será que ela entendeu onde estava inserida historicamente antes de morrer. Será que ela leu sobre como seus ancestrais vieram parar no Brasil?
Bonde é tombado pela população pobre do rio de Janeiro na
chamada "Revolta da vacina" em 1904; Na época os governos
 do presidente  Rodrigues Alves e do prefeito Pereira Passos
 mandou destruir bairros inteiros em que viviam descendentes
 de escravos e vacinavam os desalojados à força; os desabrigados
migraram em massa para os morros, onde construíram
 barracos, que, de provisórios viraram permanentes
Será que ela chegou na parte em que a herdeira do trono libertou os escravos e começava a traçar um plano de reforma agrária para assentar os ex-cativos, mas aí veio o Exército a serviço dos “donos” de terra e dinheiro (ex-donos das pessoas pretas), no novembro de 1889, e botou a princesa pra correr com seu pai e suas ideias? Será que ela chegou na parte que Exército e ricos, se revezando no poder, começaram importar pobres de outras partes do mundo para trabalhar, deixando os ex-escravos e sua descendência sem espaço no sistema produtivo dominante? Será que ela chegou na parte em que esses negros, sem terem para onde ir, foram tentar achar um canto na capital da República recém-declarada e aí acabaram se amontoando em casas e até estrebarias chamadas de cortiço? Será que ela chegou na parte do governo Rodrigues Alves e da reforma urbana do Rio, que demoliu os cortiços e levou seus ex-moradores a construírem barracos nos morros no começo do século passado?
Será que, antes de Rosângela ser morta, ela aprendeu sobre um certo presidente vindo do Sul que discursou na cidade dela, falando de redistribuição de riqueza e dos meios de produção (igual planejava a princesinha), mas aí vieram o Exército e os donos da riqueza e derrubaram o cara? Ela devia ser uma menina esforçada. Estava estudando enquanto acontecia um tiroteio. Será que era para mudar as coisas no lugar onde vivia? Será que era pra sair dali? O fato é que, se ela continuasse estudando, poderia juntar as partes do quebra-cabeça.
Muitos dos meninos da idade dela não entenderam a história e pegaram em armas sem entender de onde vem o tiro. Os soldados do morro morrem cedo. Muitos não chegam aos 20 anos ou na página 20 do livro de história. Pegam em armas para inserir-se na lógica econômica do mundo em que vivemos. Pegam em armas por seus patrões, os traficantes, que na verdade são agora só mais um grupo de capitalistas dentro desse sistema econômico, mas fora da legalidade. Então eles pegam em armas para terem dinheiro, comida, drogas, tênis importado, MP3, a admiração das pessoas. Enfim, os marginalizados que não entenderam a história só querem ser burgueses, pois eles não chegaram até a página ou o dia em que entenderiam de onde vem o tiro.
Como agora vão dizer que o problema é simplesmente a droga, disseram que o problema 100 anos atrás era simplesmente a vacina. Penso que, ainda que tivesse tido tempo de ler o livro todo, Rosângela não encontraria uma página falando de quando o Exército e os donos da riqueza, que haviam derrubado a tal ideia da redistribuição mais uma vez, começaram a mandar passadores de maconha, ladrões, assaltantes e vendedores de Rolex (contrabandeados, falsificados ou roubados), 
Cena do filme Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat, mostra
 a convivência entre presos políticos e presos comuns
no Presídio da Ilha Grande.  A organizaçãodos estudantes
 de esquerda inspirou os presos comuns a se organizarem e
exigirem seus direitos dentro das prisões onde eram torturados,
 nascia  a Falange Vermelha, que mais tarde sairia para as ruas
 e atuaria, sem fins políticos, como a maior organização criminosa
 do Rio, o Comando Vermelho
quase todos pretos, para o presídio da Ilha Grande. Não é que arrancaram a página, é que simplesmente não devia estar no livro, porque não cai no Enem que na Ilha Grande eles foram torturados. Mas aí - também não devia dizer o livro - os presos comuns aprenderam com os presos políticos a se organizarem, se unirem, terem um caixa comum, fazerem ações coletivas e colaborativas.
A Ilha Grande foi uma escola - de estratégia de guerrilha e organização. Mas pelo jeito não ensinaram a história. Erro fatal dos presos políticos. Num raro encontro entre intelectuais e miseráveis, não lecionaram de onde vinha o tiro. Será que Rosângela, morta na última quinta, aos 14 anos, durante a tomada pelos militares da favela em que morava, chegou na página que falava da volta da democracia nos anos 80? Se chegou, pode não ter entendido que os donos das coisas só deixaram eleições aconteceram quando viram que dava pra continuar no poder simplesmente não contando a história toda na TV, nem deixando as pessoas aprenderem estudando.
Deu tempo de Rosângela entender onde ela estava na história? Deu tempo de ela entender que não existe bala perdida, que todas vieram de algum lugar... De algum lugar do passado? Sei que não deu tempo de ela ler no jornal as autoridades declarando “Vila Cruzeiro agora é do Estado”. E não deu tempo de ela levantar a mão e perguntar: “Professora, de quem é o Estado?”.

domingo, 21 de novembro de 2010

A dinastia do Espártaco Negro

Esse texto eu publiquei na coluna Viagem no Tempo do dia 20/11/2010, Dia da Consciência Negra, no  Jornal do Povo (Rio Grande do Sul). Fala de partes da História que não são muito tocadas no "roteiro" das escolas brasileiras.

Reprodução de imagens do livro Zumbi dos Palmares, feita pelo artista dos quadrinhos  Wamberto Nicomedes mostra resistência quilombola em Palmares
A jovem princesa Aquautune era uma valorosa guerreira. Em 1665, quando os portugueses entraram em guerra contra seu pai, o rei do Congo, ela quis ir para o campo de batalha e comandou 10 mil homens. A batalha foi dura. Não deixe o preconceito fazer pensar que os africanos lutavam nus com lanças de madeira. Não, eles tinham proteções corporais e armas de metal. Os arqueiros congoleses eram a artilharia mais poderosa dos exércitos africano, mas os portugueses vinham com as mais poderosas armas de fogo da época e com mercenários norte-americanos e brasileiros. Manikongo, o soberano, foi morto e sua filha, a princesa Aquautune, foi escravizada e levada ao Brasil para trabalhar na produção de açúcar.
Quadro Princesa Africana, do belga Floris Jespers,
mostra belezaa da princesa do Congo, Aqualtune
Uma princesa guerreira escrava? Isso não poderia durar muito tempo, ela tinha um espírito forte. Fugiu e foi viver na Serra da Barriga, no atual estado das Alagoas. Naquela serra outros negros fugidos formavam aldeias, os mocambos ou quilombos. Eram comunidades autônomas, onde os moradores plantavam, caçavam, pescavam. Num ambiente geográfico bastante diferente daquele que conheciam, tiveram que aprender a viver na mata. Conheciam a metalurgia, e isso é importante quando existe demanda por arados e lâminas. Começavam um verdadeiro modelo alternativo de civilização. Um modelo sustentável.

Os vários mocambos da Serra se uniram numa espécie de confederação quilombola, que ficou conhecida como o Quilombo dos Palmares. Palmares chegou a ocupar uma área maior que a de Portugal, tinha núcleos populacionais de até 8 mil habitantes. A população total de Palmares variava bastante, mas pode ter chegado a mais de 40 mil pessoas em determinadas épocas.
Na época de Aquautune, os portugueses em território brasileiro enfrentavam os holandeses, que queriam tomar o Nordeste. A instabilidade da época fragilizou a segurança dos engenhos e as fugas de escravos estavam em alta. Palmares crescia. Os holandeses tentaram, tentaram, tentaram... Mas os liderados da princesa resistiram.
Depois de finalmente botarem os holandeses pra correr, os portugueses partiram pra cima do reino de Palmares. Foram várias as incursões portuguesas. A violência era enorme. Numa das invasões, um neto da princesa de 6 anos de idade, nascido no quilombo, é raptado e dado ao padre Antônio Melo, que o batiza com o nome de Francisco. Até os 15 anos ele foi coroinha, aprendeu o português e o latim, estudou. Na Bíblia leu história de homens que lutavam contra a escravidão de seu povo.
Cartaz de filme do cineasta Cacá Diegues, sobre o antecessor de Zumbi
Ele tinha comida, casa... Mas algo o incomodava, algo que o fazia não se sentir livre. Pode ter sido a cor da sua pele, que continuaria negra, portanto, alvo de descriminação, mesmo que estivesse abrigado pelos brancos e pela mais forte de suas instituições. Ou então eram os gritos dos ancestrais, gritando de dentro das veias, chamando-o à luta. Então ele fugiu...
Voltou a Palmares, onde seu tio, Ganga Zumba, acabara de emergir como líder. Francisco tinha 15 anos quando voltou a usar seu nome original: Zumbi. Guerreiro valoroso, era admirado pela coragem, pela capacidade enquanto estrategista e pela habilidade na luta, a capoeira primitiva. Zumba fortalecera o quilombo, era muito bom nas táticas de guerrilha, o que levou os portugueses a tentarem um acordo. As autoridades brancas ofereceram liberdade para os negros de Palmares, desde que eles reconhecessem a autoridade real e se mudassem para um outro lugar, um assentamento onde poderiam viver em paz.
Os portugueses haviam desistido de recuperar os escravos de Palmares para reestruturar o negócio do açúcar (abalado pelas invasões holandesas). Sabiam que Palmares havia se tornado um símbolo, que poderia inspirar outros negros, questionar o sistema de colonização monocultor escravista. A paz com Palmares para os portugueses era uma espécie de “vão-se os anéis, ficam os dedos”. Até mesmo brancos, judeus principalmente, começavam a fugir para o quilombo.
Zumba aceita. Toma a paz como uma vitória. A comunidade se divide, mas a grande maioria queria continuar lutando. Por que só eles poderiam ser livres? Zumbi era um dos que queria continuar a luta, continuar entrando nas fazendas e libertando mais e mais negros. Era a consciência negra.
Capa de versão em quadrinhos sobre o guerreiro negro
 lançado em 2002 pela Editora Fluminense, com roteiro
 de Antonio Krisnas e desenhos de Allan Alex 
Zumba morre envenenado (provavelmente por opositores, mas cogita-se também o suicídio, o que é menos provável). Os líderes dos mocambos de Palmares aclamam Zumbi como o novo líder.
A guerra dos Palmares continua. Os portugueses e jagunços não dão conta, então chamam um dos assassinos mais famosos da América Portuguesa, o bandeirante Domingos Jorge Velho, um mercenário que fez a vida aprisionando índios e pilhando povoados. A luta foi dura. Os negros do quilombo eram muito mais preparados militarmente que os índios que o assassino paulista havia enfrentado.
Tortura e chantagem. Só assim Domingos poderia por as mãos em Zumbi. A promessa de liberdade em troca da informação sobre o esconderijo de Zumbi fez um quilombola entregar seu líder. Ele resistiu até o último instante. Mesmo emboscado, como um leão africano, lutou. Morreu como um homem livre no dia 20 de novembro de 1695. Foi decaptado e teve a cabeça exposta em praça pública para desencorajar os negros.
Não deu certo, Palmares ainda resistiu, mas sem um líder com a inteligência e determinação de Zumbi não pode articular a luta contra a desproporção bélica dos portugueses e mercenários paulistas, truculentos, que deixavam um rastro de fumaça e sangue... Mas Zumbi continua inspirando o povo negro e os oprimidos em geral. Seu exemplo ensina a não se conformar com pouco, nem com paz aparente, mas a buscar a liberdade plena.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Redenção de Isabel

Em 15 de Novembro de 1889, militares aliados a grandes proprietários de terra davam um golpe de Estado, para impedir os planos de reforma agrária e justiça social da herdeira do trono.

A Princesa Isabel foi a primeira mulher a ocupar uma
vaga noSenado. Não fosse o golpe de novembro de
1989, teria sido a primeira mulher a governar o País
Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, a Princesa Isabel, aboliu a escravidão numa canetada no dia 13 de maio de 1888. Heroína por um tempo, a princesinha, já morta e enterrada, caiu em desgraça com um precipitado revisionismo histórico propagandeado por setores do movimento negro.

Os revisionistas transformaram Isabel de mocinha em bandida quando questionaram a amplitude da Lei Áurea, que libertou os escravos, mas que supostamente os teria deixado entregues à própria sorte, sem indenização pelos anos de trabalho não-remunerado, sem casa, sem terra e sem emprego. Contudo, novos estudos estão reabilitando Isabel Cristina Leopoldina etc, etc, etc, e ao que tudo indica a herdeira do trono imperial brasileiro era muito mais progressista do que se imaginava: defendia o voto feminino e queria promover a reforma agrária.

O historiador Eduardo Silva, da Fundação Casa de Rui Barbosa, teve acesso a documentos inéditos, como cartas da princesa endereçadas a proprietários de terra. Antes da Lei Áurea a princesa gastava boa parte de seu dinheiro comprando escravos (mas não era para explorá-los e sim para libertá-los). Após a assinatura ela pretendia comprar terras para assentar os recém-libertos, não descartando inclusive contrair empréstimos do Banco Mauá para distribuir pedaços de chão a todos os ex-escravos. Como eram muitos os negros, Isabel tentou até conseguir doações de terra e dinheiro para promover essa reforma agrária.
Debret retratou a escravidão oficializada no Brasil, abolida em
1888 por Isabel, que seria coroada rainha em no máximo 4 anos.

Com os fundos doados pelo senhor teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, afrodescendentes em terras próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos”, escreveu no dia 11 de agosto de 1889 em missiva endereçada ao Visconde de Santa Vitória.

A filha de Dom Pedro II não teve tempo de concretizar seus planos, uma vez que pouco mais de três meses após o envio dessa carta ao visconde, isto é, no dia 15 de novembro de 1889, um grupo de militares promoveria um golpe de Estado, proclamando uma república ditatorial e expulsando a família real do Brasil, incluindo a princesa e o Imperador, que haviam nascido em solo brasileiro (e não português).
Os militares, aliados aos grandes proprietários de terra, estavam possessos com a libertação dos escravos e não aceitavam a idéia de que uma mulher (Isabel) se tornasse governante do país, como ocorreria dali a quatro anos, quando Dom Pedro II (já velhinho) abdicaria em seu favor, ou antes, caso o imperador viesse a morrer (como de fato veio a morrer dois anos depois).
A questão era agravada pelo fato de a futura imperatriz, que já havia ocupado o comando da Nação provisoriamente em algumas ocasiões (ela assumia a regência do império na ausência do pai, por viagem ou doença), ter aproveitado essas oportunidades aprovando a Lei do Ventre Livre e posteriormente a Lei Áurea.

De fato, a república proclamada pelo Marechal Deodoro da Fonseca não consolidou a democracia, uma vez que num primeiro momento só militares assumiam a chefia do Executivo e, depois, só os homens (os do sexo masculino mesmo) muito ricos (muito mesmo) podiam votar e ser votados. Ao longo de nossa história republicana houve ainda inúmeros golpes de Estado e ditaduras. Apenas muito recentemente é que iniciamos um processo de consolidação da democracia.

Os ex-donos de escravos queriam ser indenizados pela perda de sua “propriedade”, mas as cartas da princesa demonstravam que a intenção dela era indenizar não a eles, mas sim aos escravos (pelos quatro séculos de trabalho sem pagamento acompanhados de lesões corporais e morais). Esse foi certamente um dos principais motivos para que aqueles que estavam no topo da pirâmide resolvessem dar fim à monarquia, antes que ela se tornasse mais progressista e democrátia que seu projeto de república fajuta.

O brasileiro Dom Pedro II, governou o Brasil por 50 anos,
tempo de estabilidade e progresso sem precedentes.
Sua filha, Isabel, pretendia fazer um governo ainda mais
progressista socialmente. Ambos foram expulsos do País
Isabel foi a primeira senadora Império do Brasil. A Constituição da Independência garantia vaga ao herdeiro do trono tão logo ele completasse 25 anos. Calhou de uma neta e não um neto de Pedro I ser privilegiada com essa lei. Alí, os senadores viam a única mulher da casa usando camélias no vestido. Camélias só eram cultivadas no Quilombo do Leblon. O Quilombo do Leblon, era um Quilombo diferente. Em vez de uma comunidade de forros escondida na mata, o do Leblon era próximo ao centro urbano, e era frequentado por abolicionistas de origem aristocrática, como a própria herdeira. Tratava-se da propriedade do abolicionista português José de Seixas Magalhães, apaixonado por camélias.

Não questiono o 20 de Novembro (Dia da Consciência Negra). Mas não tenho dúvida de que o 13 de maio (Abolição) é mais valoroso e alinhado aos valores humanos e democráticos que o 15 de Novembro, feriado do golpe da Proclamação da República. As dívidas com os negros até hoje não foram pagas e a estrutura fundiária brasileira permanece inalterada, como herança maldita de nosso passado escravista. Nascemos numa República, que já tem mais de um século, mas o trabalho histórico para a construção de uma sociedade justa e democrática está longe de terminar.

sábado, 13 de novembro de 2010

"Casseta e Planeta" israelense zoando Lula e o Brasil

Latma News, um programa de humor político da TV israelense, fez uma "homenagem" ao Brasil. O programa que simula um telejornal ilustra bem a visão da direita sionista sobre a aproximação política e comercial do governo brasileiro com o Irã. Mostra também a visão preconceituosa e estereotipada que boa parte do mundo têm do Brasil.
Ofendido eu não fiquei nenhum pouco. Acho que as pessoas têm o direito de fazer as piadas que quiserem, ainda que equivocadas.
Tudo bem que esse cara nem parece o Lula (o Ehud Barak fake é que fala igual o Lula) e a gente também não usa essas maracas de salsa em nossas músicas. O único problema é que se eu contasse a piada do Jacó e do Jacózinho eu seria chamado de facista e teria de responder judicialmente.
E você o que achou do Casseta Sionista?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Camisetas do Viagem no Tempo


Galera, ficaram prontas as camisetas do blog Viagem no Tempo. Quem estiver afim de uma, é só seguir o meu perfil no Twitter @leandrojacruz e ficar atento às dicas.
Serão várias camisetas nos próximos dias. Os ganhadores serão anunciados no twitter e no blog.
Em breve, postaremos também novos modelos de camisetas.
Ajude a divulgar o www.viagemnotempo.com.br , a História pensada de um jeito diferente.
Abraço.
http://twitter.com/leandrojacruz

domingo, 24 de outubro de 2010

500 anos embaixo da terra

A história  da exploração das minas e dos mineradores da América Latina
(Jornal do Povo - 23/10/2010)

por Leandro Cruz, historiador
Mario Gómes Heredia, 63 anos, passou a maior parte deles debaixo da terra
Ele aparece fotografado aqui por uma sonda, a 700 metros abaixo da superfície do
deserto, na ocasião em que ele passou mais tempo seguido sob o s
olo

Na semana passada o mundo inteiro ficou olhando para um buraco no chão, um buraco no meio do deserto. O resgate dos 33 mineiros chilenos foi um 11 de setembro às avessas. Se transformou num espetáculo televisivo internacional, mas em vez de perdas de vida em choques de aviões, desabamentos e saltos para a morte, víamos homens (que poderiam estar mortos e enterrados havia 70 dias) sendo trazidos de volta ao mundo dos viventes.

É claro que pessoas vão lucrar muito com essa história, como o presidente (que viu sua aprovação subir 15 pontos para 73%), editoras, estúdios e (esses merecidamente) os próprios resgatados.
Menina peruana trabalha na extração de ouro no Peru.
A Organização Internacional do trabalho estima que
1,5 milhão de crianças latinoamericanas trabalham em minas

A operação foi um sucesso incontestável. Os 33 estão vivos. Êxito da vontade de viver e do trabalho em equipe deles, da tecnologia e de um governo que enfrentava greves da população de origem indígena e via sua popularidade cair vertiginosamente. Caso morressem, entretanto, se juntariam a uma enorme multidão de homens que morreram ao longo da História na América Latina de forma anônima, buscando metais valiosos que jamais lhes pertenceriam.

Com gelo no Sul, deserto ao Norte, cordilheira a Leste e mar a Oeste, o território do Chile é geograficamente isolado do resto do mundo, o que, num mundo cheio de nações imperialistas, significa proteção. Até mesmo os Incas, um século antes da chegada dos europeus ao continente, haviam desistido de enfrentar as tribos autóctones daquela região e anexá-las aos seus domínios. Simplesmente, para eles, não valia a pena. Mas os espanhóis teriam uma maior sede por riquezas, uma maior determinação, cavalos e armas de fogo.

Acontece é que Francisco Pizarro, logo nas primeiras décadas do século XVI, já havia conquistado o Peru e saqueado os templos e palácios incas (pra não falar nas mulheres violadas e nos assassinatos). Desde então, não faltaram aventureiros em busca de metais valiosos, acreditando que pudessem também descobrir e subjugar outros impérios ricos, como os encontrados no Peru e no México.

Os indígenas entenderam o que os espanhóis queriam e, para que os espanhóis "dessem um pouco de sossego" aos seus povos, criaram a lenda do Eldorado. Diziam existir uma grande cidade em que até os palácios era feitos de ouro, em que o rei tinha o corpo besuntado de óleo e depois coberto de ouro em pó. As lendas exageradas iam se misturando com relatos cerimoniais sobre oferendas em ouro lançados em lagos profundos. A cada lugar que os espanhóis chegavam, os nativos indicavam um caminho diferente: mais ao sul, mais ao norte, no atual estado de Roraima, nas Guianas e no Chile (além do deserto e da montanha).

Mas durante essa busca pela cidade de ouro não deixaram de cometer seus saques e violências contra os nativos que encontravam. Enquanto não achavam o Eldorado, nativos eram forçados a trabalhar nas minas.

Até então, a única coisa que os brancos conheciam sobre o território protegido pela Patagônia, pelo Atacama e pelos Andes eram relatos sobre seu litoral, "descoberto" por Fernão de Magalhães (ainda falaremos mais desse cara outro dia). O primeiro a buscar o Eldorado no Chile foi Diego de Almagro, companheiro de Pizarro na aniquilação e saque dos Incas. Ele cruzou os Andes, andou centenas de quilômetros e só achou gelo, deserto e morte. Desistiu depois de perder muito dinheiro e homens na aventura.

Outros vieram depois e, depois de descobrir os caminhos para vencer a cordilheira e ou o deserto, não foi difícil vencer os nativos. E uma vez que não existia nenhum palácio de metais valiosos por ali, os indígenas tiveram que ir para as minas, para o fundo da terra, tirar ouro e cobre para os brancos.

A história se repetia de maneira parecida por toda a América. Muita coisa mudou ao longo dos últimos quatro séculos na América Latina, mas algumas coisas permaneceram iguais. A maior parte do ouro do subsolo sul-americano (a que já foi encontrada) embeleza hoje as catedrais europeias. O cobre garante a geração, transmissão e uso da energia elétrica de boa parte dos países industrializados do mundo. Mas os milhares de mineiros continuam anônimos.

Na porção portuguesa da América Latina colonial, a mão de obra
explorada na mineração era a de escravos africanos
No Chile, os mineiros, não só os 33, passam anos debaixo da terra (mas de tempo em tempo dão uma paradinha e voltam para a superfície). Morrem de doenças respiratórias e não enriquecem. Os operários da mina San José, por exemplo, estavam com seus salários atrasados. Os mineiros que ficaram de fora, inclusive fizeram piquetes para cobrar a mineradora com cartazes com dizeres como “não se esqueçam dos outros 250” e “também estamos com fome”.

Tanto quanto a saída da mina, os 33 podem comemorar sua saída do anonimato. Hoje o mundo sabe, por exemplo, que Mario Gómez Heredia, 63 anos, o mais velho do grupo, trabalhava debaixo da terra desde os 12, sofre de silicose e agora também de pneumonia. Sabemos que ele, apesar da idade e da doença e de já ter perdido três dedos da mão em acidentes de trabalho anteriores, continuava trabalhando.

O episódio deveria servir para levar à reflexão sobre quantos e quantos morreram anônimos e escravizados, até hoje, buscando riquezas para garantir a satisfação da insaciável ganância e luxúria dos homens.