sábado, 1 de janeiro de 2011

Um olhar sobre a década (que acabou de acabar)

Carlo Giuliani, manifestante assassinado pela polícia italiana durante
protestos ocorridos por
 causa de reunião do G-8 em Gênova 2001
(Jornal do Povo, Rio Grande do Sul, edição especial 31/12/2010 e 01/01/2011)


por Leandro Cruz
O defunto da década ainda não esfriou. Além disso, esse fim de década é uma questão arbitrária, pois ciclos históricos não coincidem necessariamente com o fechar de datas redondas. E mais, vale lembrar que o ano 1 d.C foi fixado como sendo aquele que chamamos de ano 1 d.C só em 526 d.C. Porque no ano 1 Jesus era só uma criança pobre e desconhecida de uma distante colônia romana que ninguém imaginava que um dia dividiria a contagem do tempo em quase todo o mundo. Aliás, as indicações bíblicas de que ele teria nascido durante o recenseamento de César Augusto, quando Quirino era governador da Síria e Herodes Magno ainda era melek dos judeus, causam uma coincidência de datas que vai de 6 a.C a 4 a.C (quando Herodes morre). Ou seja, o monge Dionísio, que fez as contas, errou. Se tivesse acertado, a primeira década do século XXI teria acabado há uns 5 anos.

Passeata de abertura do Forum Social Mundial de 2003 reuniu
150 mil pessoas sob o lema "Um outro mundo é possível"
Mesmo assim, é inevitável que a cada data redonda reflitamos sobre os últimos 10 ou 100 anos. O julgamento histórico adequado sobre o que de fato fica dessa década, só um olhar mais distante temporalmente poderá fazer. Qualquer balanço pode apresentar distorções, principalmente num mundo em que governos e empresas privadas têm dedicado grande esforço em não deixar as verdades inconvenientes chegarem às pessoas, e podemos não estar vendo muitas coisas.

Sabemos que na década morreram João Paulo II, a ovelha Dolly, Slobodan Milosevic, Pinochet, Zilda Arns, Ahmed Yassin, Reagan, Brizola, Arafat, Fernando Sabino, Will Eisner e tantos outros.

Garoto palestino passa em frente a grafitti com
imagem do líder Yasser Arafat. morto em  2004
Mas também nasceu muita gente ainda tão alheia ao mundo como era o pequeno Jesus no pseudo-ano 1 d.C. Só no Brasil, hoje temos 21 milhões de habitantes a mais em relação a 10 anos atrás. Apesar dos problemas óbvios que esse crescimento causa, dessa multidão podem sair pessoas que marquem profundamente a História desse século (para bem e para mal. Não sabemos).

Apesar das distorções, algumas análises podem ser feitas olhando dados numéricos já bem estabelecidos, como por exemplo:

Civis mortos devido aos conflitos armados no Iraque desde a invasão em 2003 = 108.391.

Número de armas de destruição em massa encontradas naquele país (que foram as alegadas razões da guerra) = 0.

No Brasil, temos também números perturbadores:

Salário dos deputados federais = R$ 26.000,00 (+ benefícios).

Salário mínimo do trabalhador brasileiro = R$ 540,00.

Desenho de um aluno da escola primária Al Assail,
de Bagdá, feito em 2003
Os dados acima ilustram um pouco como as coisas estão no Brasil e no mundo. Por aqui, continuamos a ter uma estrutura de Estado corrompida, que favorece a poucos e se baseia no clientelismo, onde mudanças estruturais parecem longe de ocorrer. Pensando na década, lembro de dólares em cuecas, ministro da Casa Civil chefiando quadrilha, fraude no Detran do RS, nomeações secretas no Senado. Tanta lama em tão poucos anos... O triste é que essas coisas esperam semanas, e não anos, para sumirem da lembrança das pessoas. Quantos se lembram da (até hoje mal explicada) manobra de retirada de assinaturas do pedido de abertura da CPI da corrupção que investigaria as denúncias contra o governo FHC, por exemplo?

Em 2010, um ano em que 60% do povo que inventoua democracia
boicotou as urnas, o ministro conservador Kostis Hatzidakis
entendeu o quanto as pessoas de andam bravas com políticos
safados e subservientes a estrangeiros
Já os números da guerra nos lembram que a “globalização”, tão celebrada na década anterior, não significou o cumprimento das promessas de desenvolvimento econômico e humano falso profetizadas pelos neoliberais. Nesse globo "linkado", vemos grupos querendo impor visões de mundo e modos de vida ao resto da humanidade. Radicais islâmicos jogam aviões em prédios para impor a ideia de que todos devem abraçar essa religião, inclusive em seus dogmas sexuais. Radicais capitalistas jogam bombas para dominar as fontes de recursos naturais e impor que as pessoas consumam seus produtos, independentemente de seu impacto ecológico e humano.

Ainda há a ala da esquerda latino-americana que tende ao autoritarismo chegando ao poder em nosso continente: amordaçando a imprensa e a internet, mandando dissidentes para a cadeia ou para a cova. Uma espécie de bonapartismo em que um líder toma o poder em nome do povo, dos favorecidos, depois militariza o país, acaba com a liberdade e governa de fato para um grupo restrito.

Jovens espanhóis usam máscara do personagem "V"
(o poético ativista anarquista, personagem do romance
gráficode Alan Moore) em protesto pela libertação do
criador do Wikilwaks
Penso que o verdadeiro embate da próxima década não será entre ocidente e oriente, entre esquerda e direita, mas entre o autoritarismo centralizador e a liberdade do homem, já que no fim das contas Bin Laden, Sarah Palin, Chávez, Hu Jintao e Bento XVI tem mais em comum do que pode parecer à primeira vista.

Por outro lado, vemos na resistência hackers lutando pela democratização da informação. Vemos jovens italianos e gregos indo às ruas com disposição de enfrentar a infiltração da máfia em seu governo ou a precarização de direitos impostos pela União Europeia (que se demonstrou criada para os grupos econômicos, e não para o povo). Vemos pensadores libertários em plena atividade, como Hakim Bey e John Zerzan se popularizando. Vemos pessoas recusando o autoritarismo da sociedade de consumo e optando por estilos de vida mais frugais e sustentáveis. Vemos artistas legítimos independentes se organizando em coletivos ou atacando sozinhos, como o britânico Banksy ou o brasileiro Thiago Vaz, furando os bloqueios da grande indústria cultural.
Jovens de diferentes países trabalham em multirão levantando mais
uma casa sustentável na ecovila Dancing Rabbit, nos EU
A

Ainda não é possível saber que veredicto a História dará à década de 2000, mas dá pra ver que os anos 10 serão verdadeiramente desafiadores. Ansiamos por paz, aquela que conforme bem dizia o polonês Karol Józef Wojtyla "exige quatro condições essenciais: verdade, justiça, amor e liberdade".

Twitter: @leandrojacruz

3 comentários:

  1. cara, esse parágrafo ("...no fim das contas Bin Laden, Sarah Palin, Chávez, Hu Jintao e Bento XVI tem mais em comum do que pode parecer à primeira vista") foi escrito há décadas por Norberto Bóbbio, com outras palavras, só pra te dar razão. O extremismo junta as pontas da esquerda e da direita, de qualquer ideologia que se encaixe neste espectro, aliás.
    Parabéns pelo texto!

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  2. Bem legal, é só um olhar rápido mesmo, né? Mas muitas coisas foram ditas. Lembrando que essa década começou com 11 de setembro, o sentimento de insegurança, o início da que americana possível, será?
    Toda análise cai na história alternativa. Acho que só na próxima década será possível falar dessa, xD

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  3. Rafael Salsicha Analfabeto4 de janeiro de 2011 11:38

    Um texto de uma pessoa que chama as outras de analfabeta, e tira conclusões se elas gostam ou não de ler antes de conhece-las.

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