domingo, 17 de outubro de 2010

Salve o Saci! Salve a cultura brasileira!

por Leandro Cruz, historiador

Talvez eles estejam simplesmente se escondendo, preparando um plano de rebelião. O mesmo furor do consumismo, que desequilibrou os biomas e ameaça espécies de tantos bichos, é o mesmo culpado pela progressiva diminuição da população de sacis. Aqueles negrinhos pernetas, de cachimbo na boca e gorro vermelho estão ameaçados de extinção. Cada vez menos gente vê, cada vez menos gente escuta história sobre eles sob a luz de um lampião, de uma fogueira ou do luar.
Coitado do saci e de outros moleques. Tem criança mais amputada que o saci, aleijada de alma, de sonho, de imaginação. Alguns desses moleques “sonhetas” estão babando em frente à televisão. Outros se contorcem pelos becos tendo na mão um cachimbo bem diferente daquele do saci. O saci não é mal... ele só quer brincar. As outras crianças é que não querem ou não podem mais brincar com o saci. Elas estão ocupadas matando terroristas no computador ou procurando comida no lixo ou trabalhando.
Índios e caboclos acreditavam
 que o saci se transformava
 no passarinho
Tapera naevia
O saci nasceu na floresta, entre os índios guarani do Sul do Brasil, pertinho do Paraguai e da Argentina. Eles ouviam um assovio ou canto melancólico vindo sabe-se lá de onde. Para eles, tratavam-se de uma brincalhona entidade da floresta, que jamais crescia ao tamanho de um adulto, se transformava em passarinho. O passarinho em questão é o Matinta-perêra (Tapera naevia é o nome científico), o mesmo nome do mito indígena. A ave é conhecido por seu assobio que ecoa em todas as direções, num canto que parece dizer “Sem fim... Sem fim...”.
Grafite numa rua de Santo André
Mas a barra ficou pesada quando os brancos chegaram e começaram a escravizar os nativos. Muitas tribos tiveram de migrar. E assim o mito foi sendo espalhado pelo Brasil, virou perneta no meio do caminho, chegou na senzala. Ali, o menino ficou pretinho e pelado, igual as crianças dos escravos, que se identificaram com o personagem, simbolo de liberdade e justiça contra as pessoas más. Nos quilombos, contava-se que ele ia nas fazendas, soltava animais e escravos, dava nó na crina dos cavalos. Entrava nas cozinha, onde trabalhavam as velhas negras, as mesmas que contavam história para as crianças, inclusive dos brancos. Saci que bagunçava tudo na cozinha e às vezes sumia com algumas broas e outras gostosuras. Assim o negrinho comia.
O gorro vermelho e furo na mão (característica presente só em algumas regiões do país) ele pegou do duende português Fradinho da Mão Furada. O comportamento por vezes vil do Fradinho faz com que algumas pessoas tenham medo dele e o considerem uma especie de diabinho. Mas quase ninguém tem medo dele, sabe que ele é só um negrinho brincalhão.
E realmente existem variações. Tem lugar em que ele nasce do bambu e é assexuado, tem lugar que se reproduz sexuadamente com sacizinhas, tem lugar em que o saci nasceu da união de um fazendeiro cruel com uma escrava.
A torcida do Internaciona
l de Porto Alegre adota
 o Saci como mascote
Ao longo do século XX e começo do XXI, tem havido uma política de extermínio de sacis Os contos de fadas europeus, o audiovisual gringo, a falta de conversa entre gerações e também a falta de imaginação, são . As bruxas e bruxos e vampiros e o papai noel não querem deixar nenhum espaço pro saci.
É que o saci é subversivo. Ele não pede pra você comprar nada. Ele não instiga te instiga a querer um par de tênis (nem poderia) ou um novo jogo eletrônico. Ele só instiga a vontade de liberdade, vontade de brincar e de subir em árvore pra comer jabuticaba, goiaba e manga do pé. Ele é brasileiro e é criança de verdade, não é criança plastificada, por isso não querem o saci pulando por aí.

RESISTÊNCIA
Mas sempre teve gente defendendo o saci (em troca devem receber proteção na floresta...). Em 1917, por exemplo, foi publicado o livro “Sacy, resultado de um inquérito”, de Monteiro Lobato. A obra é resultado de uma pesquisa do escritor que havia pedido a seus leitores em O Estado de São Paulo para que lhe enviassem cartas de todo o país, contando sobre como era a lenda em sua região. Em muitas aventuras da turma do Sitio do Pica Pau Amarelo, ele também aparece.
Outro grande defensor do saci, é o cartunista Ziraldo, que criou a Turma do Pererê.

Hoje existem entidades como a SOSACI - Sociedade dos Observadores de Saci – e a ANCS – Associação Nacional dos Criadores de Saci - , com sede em Botucatu, que vêm fazendo um importantíssimo trabalho de resgate do personagem. E já começa a surgir um movimento para que ele seja o mascote da copa 2014.
Os amigos do saci conquistaram que no dia 31 de outubro seja comemorado o Dia do Saci. Ia ser bom se blogueiros, professores, avós, jornalistas, contadores de história ajudassem a divulgar o dia do Saci, em vez de pendurar abóbora com cara de má pelas escolas.

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Textos e filmes para ajudar professores a pensarem nas atividades do Dia do Saci
VAMOS DIVULGAR A DATA
No twitter, vamos tentar colocar as hashtags #saci #diadosaci e #saci2014
Sínteses: http://www.brasilescola.com/folclore/saci-perere.htm
Sociedade dos Observadores de Saci: http://www.sosaci.org/saci_mascote1.htm
Campanha Saci, mascote da Copa 2014 http://www.sosaci.org/saci_mascote1.htm
Um artigo bacana de José Carlos Pontes, saciólogo http://migre.me/1AMjB
Documentário “Somos todos Sacys”, de Rudá K. Andrade e Sylvio do Amaral Rocha. Coprodução Confraria Produções e Rede SESCSENAC de Televisão.


Somos Todos Sacys from Confraria Produções on Vimeo.

3 comentários:

  1. Cristiane Fontoura20 de outubro de 2011 11:27

    Muito legal...Adorei, e preciso mesmo preservar nossa cultura, e ensinar para nossas crianças e adolecentes, o que liberdade, felicidade, o que ser como o Saci!!! valeu !!! Parabéns!!!

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  2. Oi Leandro, bem interessante seu texto. Aprendi muitas coisas sobre esse personagem único. Adoro o saci e outros personagens de nosso folclore e também dos contos de fadas europeus, rs - importantes também.

    Sou contadora de histórias e conto alguns causos do nosso Saci e também de outros seres das matas e das águas do folclore brasileiro.
    Dia 31 de outubro Dia do Saci!

    "o saci tá vindo óia, fumando cachimbo óia, de gorro vermelho óia, pulando nu'a perna só, pulando nu'a perna só, pulando nu'a perna só."

    Parabéns pelo texto, abraços

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  3. Baixar o Documentário - Somos Todos Sacys - http://mcaf.ee/t1dsr

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