sábado, 9 de abril de 2011

O retrato do fracasso e da tragédia

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Foto divulgada na internet mostra o deputado
Jair Bolsonaro (direita),do estado que foi palco da
tragédia que chocou o país essa semana, que foi
votado por 120 mil pessoas (talvez muitos pais
de crianças em idade escolar) e é famoso por palavras
de preconceito contra gays, negros e "promíscuos"
Coluna Viagem no Tempo, Jornal do Povo-RS, 09/04/2011




Consternação” é a palavra para aquele momento. Um homem havia entrado na Escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, atirando na cabeça de crianças, quando a Rádio Band News transmitiu a entrevista em que o jornalista perguntava (pressionando) se o rapaz tinha ligação com o islamismo. Wellington Menezes de Oliveira, 23, não mantinha contato com os irmãos de criação, já bem mais velhos que ele, desde a morte da mãe adotiva, há mais de um ano. A irmã não tinha muito mais a acrescentar. Mas o jornalista, ao ouvir “barba grande”, fez logo de cara a associação islamofóbica. Em minutos a palavra “islamismo” estava nos assuntos mais comentados do Twitter.

À Globo News, o coronel Djalma Beltrame, demonstrando completa ignorância nesses assuntos, afirmou ainda que o assassino de Realengo havia deixado uma carta confusa e com conteúdo com referências ao “fundamentalismo islâmico”. A essa altura, de blogs neofascistas à imprensa sionistas israelense do mundo inteiro, já, perdoem a expressão, “crucificavam” essa religião.

Mas quando a carta foi finalmente divulgada, cheia de referências a Jesus (e não a Maomé), a Deus (e não a Alá) e de apologia a dogmas cristãos (o interdito do sexo antes do casamento, por exemplo), o mundo calou a boca. Apesar da perversão sexual de demonizar o sexo e considerar “puros”, segundo sua carta suicida, “somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento”, ninguém no Brasil iniciou uma campanha de ódio aos cristãos, pois a maioria do Brasil é cristã ou tem parentes cristãos e sabe bem que a religião não é, necessariamente, causa de atos de ódio.

Nem o jornalista nem a autoridade do Estado pediram desculpas pelo “equívoco”, mas a autocrítica passa longe. Há algumas semanas brasileiros se inchavam de orgulho e vaidade ao ver o presidente dos EUA dizendo que respeita o país e o trata de igual pra igual. Essa semana vem a constatação de que, de fato, estamos cada dia mais parecidos com os Estados Unidos, mas não só em prestígio internacional. Quem não lembrou dos casos de Virginia Tech (2007, 32 mortos) ou Columbine (1999, 13 mortos)? Quanto à imputação precipitada de culpa à comunidade islâmica, minha automática associação histórica foi com Timothy McVeigh, um militante da extrema direita que em 2005 explodiu um carro bomba em Oklahoma, mas antes de divulgada sua carta ultranacionalista os seguidores do Alcorão também levaram a culpa
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O jornalista Ricardo Boechard se apressou em atribuir os atos
do assassino de realengo ao Islamismo.
Clique aqui e ouça a entrevista direcionada dele com a irmã do rapaz
O que o jornalista não percebeu é que ele próprio reproduzia o comportamento discriminatório que só leva a casos como esse. As cartas dos assassinos de escolas podem ter traços cristãos ou muçulmanos, discursos que lembrem a extrema direita ou esquerda, mas o discurso é somente a forma como eles organizam seu pensamento psicótico.

Mas sabemos que não é nada disso, que nenhuma interpretação “sã” do mundo pode originar violência dessas. O que move é o ódio à escola e às pessoas, ódio insano esse que não nasce do dia pra noite. Filho de mãe esquizofrênica e suicida, o rapaz, que provavelmente também era transtornado, sofreu humilhações e violências ao longo de sua vida. “Alguns ex-alunos se sentem culpados sabendo que inocentes pagarão por um ódio que ele sentia pela nossa turma", disse um ex-colega, que contou que o rapaz sofria bullying, principalmente por parte das meninas.

“Fica tranquilo, gordinho, eu não vou te matar”, contou um aluno sobrevivente, o que dá pistas de que ele se identificava com o garoto cujo tipo físico geralmente é causa de perseguição e humilhações em escolas.

Ele não tinha quem o protegesse na escola, que do jeito que funciona hoje é mais eficaz em criar monstros do que médicos, astronautas ou qualquer outro sonho de menino. Não me interpretem mal: amo a educação, e essa é minha principal causa e razão de viver; eu sou contra a escola, esse modelo desumano de adestramento massivo de gente (sim, 40 crianças numa sala, no auge da vitalidade, já é uma massa, uma pequena multidão, ainda mais quando há alguns que ameaçam até o professor).

Caso da escola Tasso da Silveira mostrou o fracaço do Estado
na Educação, na Segurança preventiva e na Saúde, de modo
especial o tratamento psiquiátrico de doentes mentais, em
especial os potencialmente perigosos
Na escola, onde as pessoas deveriam aprender a conviver com os diferentes, as crianças são medidas, classificadas, pressionadas, caladas. Levam na mochila a carga de preconceito que aprendem em casa com os pais (contra negros, gordos, “esquisitos”, professantes de outra fé, gays).

A escola prepara para o mercado, não para o desenvolvimento humano ou da sociedade. A aposta no ensino técnico profissionalizante, deixando de lado o lado humano, é falha. A educação tem sido tratada como um simples "upgrade" de programação de robôs que antes colhiam pau-brasil, depois cana, depois apertavam parafusos e hoje precisam saber apertar botões. É um país em que chega a ser covardia perguntar para uma criança o que ela quer ser quando crescer.

Wellington, bom aluno, com boas notas, só arranjou emprego numa fábrica de transformar leitões em salsicha.

Wellington, o bizarro retrato do fracasso, o fracasso de uma nação violenta e excludente.

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Vou fazer um Twitcast pra gente poder debater Bullying e preconceito ao vivo na web cam. Deve rolar essa semana. Vou enviar email convidando Boechard, Bolsonaro e Beltrami, mas, acho que provavelmente não responderão. Conseguindo marcar com eles ou pelo menos um deles, eu já aviso hora e data no Twitter.
Mas se nenhum dos BBBs responder, a gente debate sem eles e eu aviso do mesmo jeito. Abração a todos.
Toda a solidariedade às famílias que estão sofrendo nesse momento com a tragédia de Realengo. Paz a todos.
Twitter: @leandrojacruz
Email: viagemnotempo@gmail.com

5 comentários:

  1. seu blog é coisa pra gente grande ler. Belo texto

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  2. Gilson Mariano Nery11 de abril de 2011 07:51

    Parabéns Lendro. Você está escrevendo bem e seu blog está bacana. Um abraço.

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  3. PARABÉNS primo! Arrasou mesmo! Vou divulgar =). Beijos! LARISSA

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  4. Interessante mostrar um outro lado da história. Boa sorte com o blog.

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  5. Como diria o "Coronel Nascimento", Wellingont não matou sozinho...

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